Isabel gosta do despertar do dia. É assim desde que se lembra. Ainda menina, via a mãe levantar cedo para dar conta de um dia intenso de trabalho. Em casa e na rua. O pai trabalhava à noite. As manhãs, na casa de Isabel, eram de silêncio. Cada um fazia o que tinha que fazer sem despertar o sono de João.

Tudo isso faz muito tempo. O pai morreu cedo. A mãe ainda vive, e vive com a mesma disposição para a felicidade. Mora com Isabel. Ambas viúvas. Os dois filhos de Isabel não moram longe, mas cada um tem sua casa, seus dilemas, suas intenções. Isabel cultiva a paz. Os sofrimentos não a embruteceram. E não foram poucos. As perdas encheram de lágrimas um tempo. O tempo que veio depois surpreendeu. Nada de acontecimentos extraordinários. Mas um cotidiano feliz. Uma festa de fim de ano regada a amigos, o casamento de um filho, o neto nascendo, um dia de sol na praia, um dia de chuva caçando sujeiras no feijão esparramado sobre a mesa. Ela e a mãe. E as lembranças. E o prazer de estarem ali.

As manhãs, na casa de Isabel, começam com o aroma do café. A mãe, quando sente, ajeita a penhoar que fica ao lado da cama e se levanta para comer com a filha. Gostam de gostar uma da outra. Tomam os remédios que precisam tomar. Comem sem pressa. E conversam. Como gostam de conversar essas duas! Falam sobre o passado sem melancolias. Revisitam os álbuns da memória, os momentos que construíram, as pessoas que se foram. Conversam sobre algum assunto do dia, se vai chover, se o sol estará forte, se o médico marcado vai mudar alguma coisa da dieta, se o time que torcem vai, enfim, ganhar. Comentam sobre as crianças. E se satisfazem com isso. Depois dão por encerrado o desejum.

Enquanto a mãe de Isabel lava as poucas louças que usaram, a filha limpa a casa no dia de limpar, lava a roupa no dia de lavar, rega as plantas. É uma casa simples, mas tem jardim. Há pássaros que cantam por ali. E elas gostam. Depois, é o almoço. Isabel gosta de cozinhar. A mãe ainda dá os seus palpites. Mas o que Jurema gosta mesmo é de costurar. Na velha máquina, ainda desfila a sua arte. À tarde, às vezes, passeiam, visitam os filhos de Isabel, vão à casa de algumas amigas. Tudo muito perto. Gostam do lugar em que vivem. Se precisam ir ao centro da cidade, planejam antes. Preferem horários em que as conduções não estejam tão lotadas. Em algumas noites, vão à reza; em outras, ficam em casa. Escolhem um filme e se divertem juntas. Comendo pipoca ou brigadeiro de colher.

Nos cômodos, fotos antigas. Nas gavetas, guardados de tempos que se foram. Mas há espaços para novos enfeites. A conversa de ontem era sobre a formatura de uma neta, da mais velha. Faltam poucos anos.

"Meus Deus, como o tempo passa! Ela não é mais uma meninota", diz Isabel. "E como passa!", confirma a mãe, olhando por cima dos óculos, enquanto dá uma pausa no cerzir de uma calça.

O cheiro da casa simples é de banho tomado. E, no ar, há um perfume de felicidade que encanta qualquer um que acha que tem que buscar longe. Isabel também gosta do despedir do dia. Antes de dormir, agradece.

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia - RJ) | Data: 26/08/2018

Era um evento organizado pela CESGRANRIO. Um seminário nacional de educação. Especialistas de diversas áreas do conhecimento foram desfilando suas opiniões. Há muito o que se dizer sobre o ensino/aprendizagem, sobre a formação de professores, sobre o currículo, sobre a sala de aula, sobre a participação das famílias no processo educativo, sobre o poder de desenvolver a autonomia de um aluno.

Uma das mesas foi diferente. Eram alunos do ensino médio que responderiam às perguntas dos educadores. Falaram eles sobre as experiências em suas escolas, sobre o desenvolvimento das emoções, sobre os encontros necessários. Falaram com a autoridade de quem vive o dia a dia de uma escola. E, a cada pergunta, um deles respondia.

A pergunta que me deixou mais intrigado foi a seguinte, "Imagine se o próximo presidente da república chamar um de vocês e perguntar qual a reforma necessária que se deve fazer na educação do Brasil. Se você tivesse o poder de influenciar o presidente, o que você diria?". O jovem respondeu sem rodeios: "Pergunte aos professores". Deu uma pausa e explicou, "Nenhuma reforma na educação dará certo sem a participação dos professores. Quem está nas escolas todos os dias? Quem está nas salas de aula? Quem conhece o problema real da educação do Brasil? E, vejam bem, há muitos brasis. Somos grandes demais para uma reforma que venha de cima para baixo sem ouvir os professores".

O presidente da CESGRANRIO, professor Serpa, pegou o microfone e, do alto dos seus 76 anos, disse que havia tomado um banho de esperança ao ouvir aqueles jovens. E falou com o entusiasmo dos que resistem, dos que persistem generosamente professando a crença no ser humano.

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