A conversa se deu entre uma mãe e uma filha.

A filha, jovem ainda, ardia em uma paixão teimosa. Havia feito todas as tentativas possíveis para estar ao lado de seu amado. Humilhou-se diversas vezes. Perdoou seus deslizes. Chorou um futuro que parecia decidido a não enlaçá-los. Ele parecia estar bem ao lado de uma outra. Ela imaginava os ditos que, da boca de seu amado, flechavam outro ouvido. Seria ele criativo e despejaria outras falas ou estaria repetindo o que um dia tanto a elevou? Estaria ele sentindo a sua falta ou a outra o preenchia plenamente? Enjoaria dela e voltaria para os seus braços, seu abraço, ou o melhor era não esperar nada disso e prosseguir? Cartas já foram enviadas. Mensagens também. Encontros com cheiro de acaso, muito bem planejados, deram em nada. Apenas um sorriso gentil e um "Como vão as coisas"? E nada mais. Mas, ontem ainda, havia fervura. Teria sido tudo um impulso, um desejo apenas? A efemeridade dos sentimentos é inaceitável para quem ainda os tem. Ele, definitivamente, havia esquecido as promessas de eternidade, os tantos "eu te amo" que tantas consequências trouxeram.

A mãe ouvia as dores e os argumentos da filha. Ouvia, apenas. Era disso que a filha precisava. Mas chegara a hora de algum remédio. As feridas estavam por demais doloridas. E incomodativas. Foi quando surgiu a pergunta: "Mãe, você já sofreu assim?". A mãe olhou para trás e sorriu para dentro. "Diga, mãe. Você já se sentiu um nada, um troço qualquer, uma mulher trocada?". Depois de uma pausa, não muito longa, vem a resposta. "Filha, é evidente que sim. Mais de uma vez. Eu sei como dói. Um buraco se abre. E quem nos ensina como remendá-lo?"

"Quem, mãe?" E foi quando a mãe, com a delicadeza que o momento exigia, lançou sua homenagem ao tempo. O tempo é senhor dessas circunstâncias. E é um senhor que não obedece aos nossos apelos. A dor não se vai no dia que decidimos.

"Mãe, um dia passa e a gente nunca mais lembra?". Era a pergunta de quem ainda estava debutando no sofrer.

"Não digo que nunca mais a gente lembre, filha. Mas é uma lembrança diferente".

"Que nome você quer dar a ele?" - era a pergunta que a mãe fazia ao filho.

"Francisco".

"Francisco é nome de santo e não de cachorro".

O filho ficou prestando atenção à resposta da mãe, enquanto olhava o olhar do cãozinho que acabara de chegar em casa para viver com eles.

Luciano, do alto dos seus 7 anos, explicou à mãe:

"Francisco é o santo que sempre gostou dos animais. Então, ele não vai ficar ofendido. Vai gostar. Pode ter certeza disso. Eu mesmo já expliquei para ele".

"Explicou para ele como, menino?"

"Engraçado, né, mãe? Tem um monte de imagem de santo, aqui em casa, e a senhora não conversa com ninguém. Eu converso, uai".

A mãe ficou perplexa diante do filho: "Nossa, nunca imaginei".

Página 4 de 196

Publicidade