E é de novo carnaval.

E é o dia da alegria. Há sambas e marchas e canções que evocam que é hora da tristeza ir embora e da alegria chegar. A festa foi se agigantando país afora. Ritmos e estilos diferentes foram ganhando adeptos. Escolas de samba, blocos de rua, frevos, axé, clubes, salões, bares, botequins. Cada um encontra o seu jeito de viver a festa.

A festa passa. Como dura pouco, já inventaram antecipações e prorrogações. Já criaram carnaval fora de época. Tudo isso para que a alegria possa reinar? Mas o reino da alegria só se dá no carnaval?

Há alguns que extravasam. Rompem suas durezas e se lançam a alimentar fantasias impróprias para outros dias. Há os que bebem em exaustão. Há os que pedem férias de amores duradouros para aproveitar o reinado de Momo com novos acompanhantes. Há os que se vestem do que gostariam de ser, mas não têm coragem nos dias comuns. E há os que desprezam os dias comuns, porque neles não há carnaval.

“Pós-verdade”, como conhecemos hoje, é uma palavra, que foi usada pela primeira vez em 1992, pelo dramaturgo Steve Tesich. De lá para cá, ela ficou restrita a alguns grupos que tentavam compreender o sentido do pouco apreço pela verdade. Ou da “preguiça de pensar” sobre o que se tenta vender como verdade.

Foi no ano passado, entretanto, que a “pós-verdade” ganhou força. Tamanha força que a Oxford Dictionaries a elegeu a palavra do ano de 2016.

Donald Trump vendeu que estava sendo apoiado pelo Papa Francisco, vendeu que Barack Obama era um dos fundadores do Estado Islâmico. Vendeu que, proibindo os estrangeiros, garantiria emprego a todos os americanos. Sem a tal “preguiça de pensar”, esses produtos não seriam comprados. Trump venceu as eleições. Venceu prometendo ser a voz dos americanos, venceu prometendo destruir pontes e criar muros – o oposto de seu antecessor.

A Grã-Bretanha decidiu deixar a União Europeia. A venda deu certo. O discurso de que o custo para os ingleses era exorbitante fez eco.

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