Era uma terça-feira ou talvez uma quarta. Bem, o dia não importa. O que importa é o sentimento de Carlos.

Pois bem, ele amanheceu e olhou ao redor. E viu as coisas ocupando os seus espaços. A mulher já havia saído; seu perfume, não.

Enquanto inspirava o ar apaixonante, Carlos sorria. E agradecia por estar ali. No travesseiro ao lado, resquício de alguma maquiagem. E o cheiro bom da esposa. Carlos é um homem apaixonado. E fala da sua mulher com profunda admiração, o que é essencial para que um relacionamento rasgue o tempo.

Ao levantar, percebe uma fresta boa de sol iluminando a foto do filho. Tem eles um filho. Pequeno, ainda. Apressa-se para ir ao quarto do menino. Ele ainda dorme. Deita-se Carlos ao lado do filho. E o abraça com tanta força que força o menino a acordar. O filho não se importa. Diz um lindo "papai" que faz com que Carlos suspire de felicidade. Brincam eles um pouco. Cócegas, risos, guerra de travesseiros. E, depois, os afazeres necessários. O menino precisa ir para a escola, e Carlos para o trabalho.

Antes, tomam café juntos. O filho conta alguma coisa da professora. O pai saboreia um pão com manteiga e geleia. Doce é sua vida. Quando pensa que perfeição não existe, espanta o pensamento. Os dias têm sido substituídos por outros dias perfeitos. Numa sucessão de acontecimentos comuns, deliciosamente comuns.

Carlos tem amigos que reclamam dos relacionamentos. Espanta-se com alguns que dizem que o pior horário do dia é o da volta para casa. Faliram os afetos, adormeceu o respeito, esfriou o enlace. E permanecem semimortos desejando que o fim aconteça sem sobressaltos. Carlos não acha certo dar conselhos. O melhor é ouvir apenas. Vez ou outra, jogar alguma luz que ajude a enxergar. E que puxe alguma coragem para reinventar. Pensa consigo mesmo que jamais viveria uma história sem história. Se um dia esfriasse, seria sincero. Não, não haverá de esfriar. Ralha-se consigo mesmo por dar margem a especulações desnecessárias.

Páscoa vem de passagem.

Passagens interrompidas cheiram a escravidão. Páscoa é liberdade.

Passagens enterradas cheiram a morte. Páscoa é vida.

Foi assim nos idos de antigamente, quando um povo sonhava em sair de uma terra onde eram tratados com indignidades para experimentar, mesmo que no deserto, a sensação de irmandade. Os irmãos não se escravizam uns aos outros.

Foi assim, também, nos dias de Jesus. Pregaram na cruz o Pregador do Amor. O que houve? Não era Ele que curava os que de cura precisavam, que abraçava os que ninguém abraçava, que olhava com os olhos de amanhecer? Os paralíticos andavam, os leprosos sentiam-se acolhidos, os desesperançados amanheciam. Então, que mal fez Ele? Por que os gritos de "crucifica-o" abafaram as canções de liberdade? Escravos de opiniões alheias, afogados nos ódios dissipados por aqueles que tinham medo de perder algum poder, já não sabiam o que faziam.

E é assim, do alto da dor, que diz Jesus: "Pai, perdoa-os, eles não sabem o que fazem". E não sabiam mesmo. E não sabemos nós quando optamos por tudo o que nos restringe a liberdade ou a vida.

Os tempos são outros, mas as algemas persistem a nos enganar. Desconhecemos a passagem necessária que nos leva à montanha sagrada, que nos permite ouvir o sermão da humildade. Lá, em uma relva suave, os sentimentos poderiam ser suavizados. O Galileu falava de amor e de humildade, de perseguições e de justiça, de engodo e de verdade. É a verdade que nos liberta. Mas o que é a verdade? Como encontrá-la? Talvez esteja ela naquele ferido que aguarda alguém que desça de onde estiver e que dele cuide. Foi assim que Ele explicou quando falou da vida que não se encerra, quando desenhou a face do próximo. O bom samaritano. O próximo é quem cuida de mim. O amor ao próximo é o que me revela a verdade mais sagrada, a tal liberdade.

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