Joana é uma mulher como tantas outras mulheres. Mãe, como tantas outras mães. Medrosa e corajosa. Alguns medos, ela não consegue explicar. Pensa sobre eles. Depois desiste. Tem medo de barata. Muito medo. Quando tenta racionalizar consegue até rir. "A barata que teria que ter medo de mim", pensa ela. "Ela é tão pequena!". Mas, quando vê uma barata, a razão se vai e fica ela com os seus pavores.

Tem medo de altura. Ah, tem medo de sapo, também. Fica tentando se lembrar se sofrera algum trauma na infância. "Sapo não faz mal a ninguém", diz ela para ela mesma. Tem outros medos. É tímida. Gostaria de ser mais corajosa.

Joana é mãe de João. Deu esse nome em homenagem ao santo e ao pai. E foi em uma festa de São João, na chácara de seu pai, que Joana experimentou a coragem mais corajosa de sua vida.

A festa acontecia em uma área aberta próxima de uma capela construída pelo pai de Joana. Amigos vieram de outras chácaras. Os enfeites eram as bandeirinhas de sempre. Havia comidas típicas, como em todas as festas de São João. E dança. E fogueira.

Não se sabe como, mas um fogo começou a consumir a casa principal da chácara. E ninguém viu. Joana sentiu alguma coisa estranha que, até hoje, ela não sabe explicar.

Era noite. O barulho era de alegria. Ela deixou a festa e foi ver o filho, bebê ainda, que dormia na casa. Foi quando viu o fogo. Não teve tempo de pensar em chamar outras pessoas. Nunca foi apegada a bens materiais. Se não houvesse ninguém na casa, ela, certamente, não teria a coragem que teve. Se tivesse algum dinheiro na casa, ela não entraria no fogo. Se pensasse nos seus vestidos ou em alguns quadros, ela também não entraria. Joana tem medo de fogo. Nunca gostou de brincar perto do fogo, nem nas festas de São João.

Mas João estava lá. Dentro do quarto. Dentro da casa. E ela entrou. Entrou como uma guerreira disposta a qualquer sacrifício para salvar o maior amor de sua vida. Se tivesse sapo ou barata, ela também entraria. O medo do fogo era justificado. O fogo queima, o fogo mata. Mas o motivo para enfrentar o fogo era maior do que o medo do fogo.

Aos pais que já se foram, uma oração. Suas lembranças povoadoras de afetos continuam por aqui.

Despedidas sempre causam algum desconforto, alguma dor. Muitas dores me visitaram quando meu pai partiu. Chãos se abriram, dúvidas surgiram, a fé precisou ser reabastecida. Difícil imaginar o dia seguinte ao da partida. Nem um abraço, nem um beijo, nem um colo, nem um olhar. Apenas as lembranças. Lembranças tantas, eu tinha e tenho do meu pai.

Aos pais que estão, uma oração. Filhos vão crescendo e ganhando forma. Repetem ou repelem gestos e atitudes dos pais. O pai super-herói, o pai protetor, o pai companheiro. Mas há o pai violento e o pai ausente. Há o pai que não se afeiçoa e parte, partindo. Há filhos que buscam o que não tiveram. Substituições são difíceis. Há símbolos que nos significam vida. Geradores de vida, cuidadores de vida são essenciais.

Uma oração à essência da paternidade. Desde os inícios. A gravidez conjunta. O amor intenso à mulher que vai vendo seu corpo transformado por uma nova vida que insiste em nascer. Juntos. Acompanhando os movimentos e aguardando a surpresa. E, depois, os primeiros choros, os primeiros passos, os primeiros risos.

Meu pai brincava comigo brincadeiras de amor. Corrigia-me nos meus deslizes e incentivava as minhas invencionices. Eu gostava de criar palavras e de fazer discursos. Ele ria e me prometia presença.

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