Amâncio mora em um bairro tranquilo de uma grande cidade. Trabalhou a vida toda como sapateiro. Aprendeu esse ofício ainda criança e dele sempre se orgulhou. Conheceu muitas pessoas. Algumas já partiram.

Ouviu muitas histórias. Sempre com atenção. Aproveitou elogios e críticas. Aos poucos, foi entendendo do pisar de cada um. E dos temperamentos que moram acima do pisar. Certo dia, uma mulher o encarou e agradeceu pelos saltos consertados de um tamanco de família. Trocou as chinelas e, ansiosa, saiu da sapataria com os tamancos renovados. Recebeu gente irritada também. Presenciou discussões. Aprendeu em casa que alterar a voz é pouco educado, inclusive para revidar arroubos de outros.

Estudou pouco o Amâncio. No seu tempo, era difícil conciliar as coisas. Seu pai morreu quando ele era muito pequeno. Coube à mãe cuidar dele e das três irmãs menores. Do tempo que estudou, guarda a lembrança de Dona Arlete que, um dia, ensinou que todos os dias deveríamos aprender alguma coisa nova: "Nem que fosse uma palavra", dizia ela. Amâncio gosta de anotar em um caderninho as palavras que não conhece. Depois pesquisa. E pensa sobre elas.

A sapataria de Amâncio, hoje, é tocada pelos sobrinhos. Ele não se casou nem teve filhos. Vez em quando, ele aparece por lá. Observa as histórias que descansam nas prateleiras ao lado de tantos sapatos que servem para o caminhar de tanta gente. Gosta de sentar no banco da praça e conversar com aposentados que moram naquele bairro. Falam de tudo. Lembranças e esperança. Quando está sozinho, Amâncio folheia o tal caderninho e viaja com as palavras aprendidas em tantos anos de vida.

Dia desses, ele parou em uma e riu sozinho. "Ataraxia". Quando ouviu essa palavra, achou que fosse algum remédio. Era o Antonino, professor de línguas difíceis, que havia dito a palavra em tom elogioso a Amâncio. Na época, ele agradeceu sem entender. Mas pesquisou. A tal palavra nasceu faz muito tempo, na Grécia, e significa tranquilidade, diminuição da intensidade dos desejos, paz interior.

Hoje é 27 de agosto, aniversário de Jamile.

Quem é Jamile? A mulher que me convidou para um café da tarde ao som de Beethoven e que me inspirou esta história.

Na mesa, havia dois castiçais. Velas. Não era necessário acendê-las. A luz do dia entrava pela janela aberta. E Jamile estava radiante. Queria brindar. Brindar o quê? A paixão. A paixão? Ora, fui seu confidente em tantas noites em que ela chorara a ausência de Lázaro. O homem por quem ela era apaixonada. Entre soluços e invenciones, ela descrevia Lázaro e o futuro que teriam juntos. Mudávamos de assunto e voltávamos para Lázaro. Ela descrevia um Lázaro que eu desconhecia, embora eu o conhecesse. Falava de suas falas. De seus textos demorados despejando amor. Com riqueza de detalhes, repetia os mesmos ditos. Eu ouvia. Cabe aos amigos ouvir. Ouvir é amar. Vez ou outra, eu a interrompia querendo mostrar a ela a luz de fora que iluminava a noite da cidade. Havia cidade. Mas ela não se permitia ver. Era ele o senhor absoluto dos seus pensamentos. E desejos.

Brigavam sem economias. E lá estava ela novamente absorta, brigando com os seus pensamentos, em diálogos imaginários, desculpando-se e culpando, na solidão voluntária a que se submetia. Nesses períodos, ela dizia o quanto ele era egoísta, o quando era distraído, o quanto era inerte em matéria de alguma mudança por amor.

Bem, mas ela queria brindar a paixão. Não entendi. Ela aumentou um pouco o volume da música. Acendeu as velas. Abriu a janela. Respirou fundo. Olhou para o longe e disse: "Brindemos o voo da paixão". Fiquei observando. Ela olhou-me com didatismo e explicou que eu havia dito, tantas vezes, que um dia ela acordaria e perceberia que a paixão é transitória. Que ela abriria a janela e saberia que aquele sentimento que a dominara, sem descanso, partiria, voaria.

"Pois bem, a paixão voou. Não quero mais. Olho para trás e vejo o quanto menti para mim mesma. Ele é avarento nas coisas e nos sentimentos. Embora tenha dito que me amava, jamais me amou. Mas o que ele sentia pouco importa,importa o que eu sinto, estou livre. Veja, eu sou capaz de ver a cidade. Há vida fora dos escombros onde eu me emaranhei".

Jamile falava a verdade. Foram meses de angústia tentando fazer o impossível para estar ao lado dele. E ele prometia futuros. E esquecia. Dizia lindas declarações e se enfurnava em outros lençóis. E ela sofria. Sofria olhando a luz acesa da janela de Lázaro e sabendo que outra mulher ria com ele os risos do anoitecer. Seu choro não o sensibilizou. Ele ouviu os lamentos de Jamile e mudou de assunto, mas não de atitude. Gostava de sentir-se desejado por muitas. Ela era apenas uma. Não bastava. Mas agora era hora de brindar a vida. Vida que segue. A paixão é fruto de um deus brincalhão, Eros, que flecha sem aviso os desavisados. Ela é boa? Certamente. Ela é má? Também. A flechada abre uma buraco imaginário, e a imaginação trabalha mais do que a realidade. Mentem os apaixonados para eles próprios. Mentem porque precisam imaginar o que imaginam ser um desfecho perfeito. Insistem no que percebem ser falho. Culpas por não tentar novamente. Choros ansiosos por não compreender as atitudes do outro. Se, um dia, Jamile chorou vendo a janela de Lázaro e imaginando o que era seu sendo de outra; hoje, diante de sua janela, ela sorri. Sorri e vê a cidade. Nossa, quanta vida há na cidade! Quantos Lázaros e Pedros e Felipes e outros vivem na cidade. Ela não os via.

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