Seu João vive no interior. E gosta de viver no interior. Não conhece as grandes cidades. Mas não sente falta. Gosta do lugar em que nasceu. Das montanhas que protegem seu vale. Dos riachos. Dos cantos que inauguram seus amanheceres. Identifica os pássaros. Os de canto curto. Os de canto prolongado. Os mais barulhentos. Os mais afinados. E não se incomoda com os galos madrugadores.

Gosta do mexer sem pressa a xícara de café, enquanto olha pela janela. A paisagem é sempre a mesma. Nunca é a mesma. Nos dias frios, aconchega-se em um velho cobertor de lã. Velho, mas valioso. Para ele. Pelos dias que foram aquecidos. Pela mulher que já partira.

Doente. Valente. Morreu Adélia no inverno. Fazia frio quando o sino da cidadezinha chorou as badaladas tristes. Os amigos foram. O padre lembrou as caridades que Adélia fazia. Era cantora, também. Cantora de Igreja. Afinadíssima como alguns passarinhos, na opinião de João. Por que morrera antes dele? Porque é assim. Preferiria que partissem juntos. Mas não dependeu dele. O que dependeu ele fez. Amou. Cuidou. Tomou os cafés sem pressa reparando na sua mulher. Que era sempre a mesma. Que era sempre diferente.

Conheceu Adélia ainda menina. Gostou do nome e do jeito. Tímida. Recatada. Ensaiou alguma aproximação. Foi feliz. Foram felizes. Os dias que viveram juntos anteciparam o que acredita João ser o Céu. Amor em abundância. O pouco que tinham, dividiam. Nada de trancafiamentos. Nada de mesquinharias. Nem nos sentimentos. Nem nas posses. Poucas posses tinham os dois. Não tiveram filhos. Tiveram momentos regados por dizeres e pausas. Juntos.

Há quem não repare. Há quem se ocupe de outros afazeres. Há quem teime em acreditar que é tudo sempre igual.

O outono não é igual ao verão nem é igual ao inverno. Está entre eles. Com suas folhas secas, com sua folhas caídas. Com seus ventos mais assanhados. Com suas árvores nuas.

É outono. O calor audaz já se foi. E o frio ainda ensaia sua chegada. Há quem prefira a primavera com suas abundâncias. São vidas e vidas querendo exibir que um novo ciclo se inicia. Calma. É outono. As folhas caídas, o desprendimento, as despedidas. Nada é definitivo. Nem a paisagem com as árvores nuas.

Eu era criança e gostava de desenhá-las assim. Parece que nuas eram mais puras. Mais prontas para o que viesse. Nuas eram necessariamente mais carentes de uma outra estação.

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