Rosa tem pouco mais de 90 anos. Está doente. Há algum tempo, os médicos disseram que pouca coisa havia para se fazer. Deixou o hospital e foi viver os últimos dias em casa. Rosa não tem medo da morte. Gosta das rezas. Gosta de conversar com Deus e imaginar como será encontrar tantas pessoas que já se foram. Seus pais. Seu único filho homem. Seu amor.

Rosa é viúva. Tem algumas filhas e muitos netos. Tem parentes. Tem amigos. Domingo passado, muitos deles estavam em sua casa. Rosa estava bem. Conversava. Reparava nas conversas. Imaginava...

As crianças brincavam com aparelhos tecnológicos. Os homens e as mulheres bebiam e falavam sobre coisas cotidianas. Vez ou outra, um comentário sobre política, sobre algum filme em cartaz, sobre um médico bom que havia prescrito um tal remédio. A conversa ia fluindo.

Começou um jogo de futebol. Ligaram a televisão. Rosa lembrou do quanto seu marido gostava de futebol. Os tempos são outros. Ela sabia os nomes dos jogadores. Não sabe mais.

Aos poucos, eles foram indo embora. E Rosa foi ficando sozinha. Ela não se importa. Gosta de ficar com os seus pensamentos. Não tem medo deles. Lembrou-se de que havia deixado tudo preparado para a sua herança. Não queria saber de brigas. Conhecia várias famílias que entraram em guerra no momento da partilha. O marido havia deixado muita coisa. Boa parte, ela já havia dividido. O restante já estava acertado.

Mas Rosa pensava em uma outra herança. Que mundo ela gostaria de deixar para os seus. Seu marido era um homem rigoroso com a ética. Não tolerava que ninguém negligenciasse as atitudes de honestidade. Presenciou, tantas vezes, o marido preocupado com o outro com quem estava fazendo um negócio. Queria que as duas partes ficassem satisfeitas. Não gostava de ver alguém vendendo alguma propriedade por desespero. Pagava o preço justo. Tratava os seus funcionários com respeito e os valorizava.

Li a reportagem sobre a reabertura do Hopi Hari. Fiquei feliz em saber que há espaço para matérias sobre parques e sobre brinquedos.

Longe de mim achar que temos de fechar os olhos para as graves crises que nos assolam. Precisamos de informações corretas e de opiniões edificantes. Precisamos de consciência política e de atitude corajosa frente aos erros tantos que maculam a imagem do nosso pais e a esperança que vive acanhada dentro de nós. Mas precisamos, também, de parques e de brinquedos. Precisamos de alegria. A alegria é um bom combustível para a inteligência. A criatividade que brota nas brincadeiras se estende nas várias formas de convivência e de solução de problemas.

Parques de diversão são um convite ao estar junto, ao rir, ao sentir e vencer o medo, ao se emocionar. É bonito de se ver os olhos ávidos de crianças que se lançam em cada atração. E de adultos que se permitem revisitar os melhores sentimentos da criança.

Já fui a muitos parques de diversão. Alguns pequenos, na minha cidade do interior. Ficava vendo a montagem do parque que funcionaria apenas durante a trezena de Santo Antônio, o Santo Padroeiro da cidade. E brincava o quanto podia. E, depois, via tudo sendo desmontado. A alegria partia um pouco e um pouco permanecia. Afinal, temos o humano poder da lembrança.

Menino ainda, fui a excursões nos parques de diversão em São Paulo e no Rio de Janeiro. Os dois, aliás, Playcenter e Tivoli Parque da Lagoa, já não existem mais. Mas me lembro das façanhas, dos medos, do correr cúmplice na chegada aos brinquedos, dos lanches, da ansiedade na ida e do cansaço da volta - éramos promessa, o tempo ainda não nos mostrava a sua face, a sua pressa.

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