Era um dia sem muitos afazeres. Um sábado ou domingo, não me lembro. Ângela acordou disposta a colocar ordem em suas gavetas. Ela sabia a razão. Na semana anterior, recebera um adjetivo não muito agradável: acumuladora. Foi Laís quem disse. Laís e Ângela são amigas há muito tempo. Estavam conversando sobre uma conhecida que havia falecido. E sobre as bugigangas que aguardavam um destino.

"Por que se guarda tanta coisa?", questionava Laís. Ângela concordava com a amiga sem se dar conta de que, em todos os cantos da casa, havia sobras de outros cantos do passado. De desafinações, inclusive. Presentes de um casamento há muito encerrado. Roupas não usadas e que, nem por decreto, serviriam. Discos velhos ladeando uma antiga vitrola sem funcionamento. Convites de casamento, de festas de 15 anos, de batizados. Cartões de natal que foram ficando para serem agradecidos. Recortes de alguma revista de fotos com alguma roupa que serviria para algum modelo a ser feito. Pratarias que clamavam por limpeza, cápsulas de café de uma máquina defeituosa. Deviam estar vencidas. Cortinas que foram retiradas para algum remendo e que ficaram aguardando alguma decisão. Brinquedos de cachorros que já morreram.

"Por que se guarda tanta coisa?", insistia Laís. Ângela fingiu cansaço e deu a visita por encerrada. Foi logo se levantando para acompanhar a amiga até a saída.

Nos dias que se seguiram, ela observou com mais afinco os tais cantos de acúmulos. E foi, justamente em um final de semana, que ela resolveu começar a obra há muito retardada.

Que mistérios guarda a primavera? Nenhum - dirão os mais céticos. Nenhum?

Ah, como seria bom se as flores mimosas pudessem falar. Ou se os grandes jacarandás fizessem o mesmo. Ou, talvez, os ipês amarelos que trazem sol a tantas névoas. Os homens se distanciam dos mistérios e, por isso, não compreendem.

O inverno pode ser rigoroso. O frio cobra o seu preço, principalmente quando estamos desprevenidos, quando nos esquecemos de que ele é efêmero. O tempo do inverno é sempre passageiro, mas nós, passageiros da vida, teimamos em teimar. Em nos desesperar. Em querer resolver antes o que antes não se resolve, Há momentos em que o melhor a fazer é esperar. Ou isso, ou nos arrependeremos de nossas pressas. O inverno nos convida a um pouco mais de reclusão. De trancafiamento. De espera.

As ansiedades nos levam ao erro. O que perdeu o amor, quando busca um outro amor, desesperadamente, se esquece de que o amor é esperança e que a esperança compreende as mudanças de estação. O que se perdeu em ilusões, o que sofre mesmo sem saber de onde vem o sofrimento, o que se sente insatisfeito pelos rumos que tomou, o que está infeliz; todos eles, ou eles todos em um só, se aguardarem, verão a primavera.

Os frios da alma nos congelam de tal ordem que é comum estarmos em casa com saudades de casa, é comum estarmos com alguém, com alguém que nos falta. Não, não é o outro o culpado da minha dor. Projeções não me levam a lugar algum. Se o outro ocupa um altar no sagrado dos meus intentos, quem permitiu fui eu. Dirão os mais sofridos que não é bem assim, que não se decide por uma paixão, que ela é flecha, que chega cortante sem pedir licença. E que, teimosa, não parte. Direi que, mesmo partido, um dia ela parte. Parte como parte o inverno. No seu tempo. Sem que possamos fazer com que se apresse. O que não podemos é dificultar a visão de uma primavera que já veio. De olhos fechados não se enxergam as flores nem os ramos novos que brotam em árvores que pareciam mortas.

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