Do que se lembram as pessoas, quando estão partindo?

Um amigo, com olhos marejados, falou da despedida de seu pai em uma cama de hospital. Os quatro filhos estavam lá. A mulher, também. E as duas noras.

Era o entardecer de um domingo. E foi a última vez que se falaram. O pai, com a voz em despedida, lembrou da festa de casamento. Apertou, com as forças que tinha, a mão da mulher e conseguiu ainda um sorriso. Ele havia se atrasado. Por causa da mãe. A mulher ouvia e mexia a cabeça em concordância. Depois, os nascimentos dos filhos. As preocupações. O tombo de um. A catapora de outro que passou para os outros. E a voz foi falhando. Os olhos, então, se fecharam. Junto com o Sol. Era noite quando mãe e filhos se abraçaram e choraram juntos. A doença os havia preparado para esse momento. “Não. Ninguém está preparado!”, foi o que disse o filho mais novo.

Meu amigo prosseguiu dizendo que é o primeiro dia dos pais sem o seu pai. Meus pensamentos viajavam, enquanto ele falava, pelo meu pai. Faz muitos dias dos pais que não o tenho comigo. Que não posso brincar com ele de quem tem as mãos maiores, que não posso preparar um sanduíche especial, ele gostava dos meus fazeres na cozinha. Faz tempo que só converso com ele em pensamento. Quando estou triste. Quando estou feliz. Em muitas conquistas na minha vida, eu olhava para frente e desejava profundamente que ele estivesse ali. Quem sabe?! Há entre os mundos que habitamos uma cortina de amor chamada mistério.

E as aulas recomeçaram.

Os recomeços sempre serviram de algum ânimo para Jerônimo. A casa não era o melhor dos ambientes. O irmão mais velho, André, cultivador de desonestidades, era um tormento difícil de conviver. Bebia, usava drogas e, se tinha algum propósito, era o de se dar bem na vida, enganando alguém.

Jerônimo lamentava pelas atitudes do irmão, mas tinha medo. O irmão o via como um fracote, ameaçava-o, ridicularizava-o na frente de outros. O pai dos dois os abandonou desde sempre. A mãe, trabalhadora que só, não conseguia endireitar o filho mais velho nem acolher os medos do mais novo. Fazia o que podia para alimentar a casa, e o resto era o cansaço.

Jerônimo, no alto dos seus 9 anos, chorava sozinho a vida dura que levava. Discordava com ele mesmo do que ouvia sobre a infância. Não. Definitivamente, a infância não era um tempo bom. E como demorava para passar! Tempo longo. Um dia, seria adulto, cuidaria da mãe e nunca mais precisaria ver o irmão maldoso.

Era isso que pensava o menino que se preparava para ir à escola. A mochila, presente de uma tia, o irmão tinha levado. Pegou o caderno, do semestre anterior, um pequeno estojo com lápis e caneta e lá se foi para a escola.

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