Junior é bom. Junior é mau. Junior acorda cedo e ajuda a sua mãe que está em uma cadeira de rodas há algum tempo. Antes de sair, passeia com o cachorro, rega as plantas, conversa com uns passarinhos que cantarolam primavera para a mãe.

Junior maltrata sua namorada. Trata-a como se fosse um objeto. Já a espancou algumas vezes. Depois se arrepende. Pede perdão. E, Julieta, a namorada, o recebe de volta.

Junior brinca com os filhos do seu irmão. É um ótimo tio. Nem um dia extenuante de trabalho tira dele a disposição para rolar no tapete da sala inventando todo tipo de estripulias.

Junior participa de rachas. Gosta da velocidade dos carros. Já foi alertado algumas vezes. Já viu amigos sendo presos por terem atropelado e matado pessoas que, inocentemente, caminhavam em calçadas.

Junior ajuda quem dele precisa. Como pode. Basta alguém de sua comunidade pedir alguma coisa que lá vai ele para arrumar um desarrumo qualquer.

Junior tem pavio curto e, quando bebe, piora. Não poucas vezes arrancou sangue de alguém que o desafiou em algum bar. Se olham para sua namorada, então, ele é capaz de deixar desacordado o desavisado. Julieta não gosta das atitudes do namorado. Mas tem medo. De ficar com ele. E medo de largar dele.

A mãe de Junior pouco sabe dele. Só sabe do seu afeto, do seu cuidado com ela, da sua meiguice com a família. Quando contaram de alguns arroubos do filho, ela não acreditou. "Junior é bom", repete a mãe. E se põe a falar das coisas boas que ele faz.

Eram irmãos que estavam em uma fila recebendo alimento. ​Os dois eram bem pequenos, talvez com uma diferença de dois ou três anos. Não sei muito bem. ​Um estava com a perna machucada, o menor. O outro, por volta dos 7 anos, estava na fila.

O calor do dia não veio naquele dia. E o frio fazia com que a espera fosse mais incômoda. Voluntários se juntavam na tarefa de alimentar os que alimento não têm. Tudo muito organizado.

​A vida nas ruas é dura. Há muitos que julgam sem conhecer. Ninguém opta por deixar o lar e viver nas calçadas. Lembro-me de uma cena de um casal que vivia há pouco tempo na rua. Lembro-me dele dizendo que não aceitava ir para um albergue para passar a noite porque não havia albergue misto, e a ideia de dormir sem sua mulher era inconcebível. "Minha mulher é a mulher mais linda do mundo", disse aquele homem. A mulher ria, tentando esconder a timidez. E, depois de alguma conversa, quando a mulher foi sentar-se na calçada, ele, elegantemente, tirou um lenço do bolso e forrou o chão onde o seu amor iria se sentar. Romantismos difíceis de se encontrar mesmo em casas onde abundam recursos e sofisticações. ​

Já vi afetos entre moradores de rua e seus animais de estimação. ​Bem, mas é sobre os dois irmãos que se tem de escrever. ​

O pequeno, um pouco maior, chegou para pegar o alimento. Cada um tinha direito ao seu. Ele compreendeu e não tentou pegar para dois. Pediu apenas mais um prato para dividir. A senhora olhou e quis saber. Ele mostrou o irmão sentado, com a perna machucada. "É meu irmão", disse com um dizer orgulhoso, com um dizer cuidadoso. A senhora deu o prato e ficou observando. ​Ele chegou junto ao irmão e dividiu exatamente tudo o que havia no seu prato. A metade do frango. A metade da porção de arroz. Duas batatas para cada um. A metade da salada. O pão que veio junto, também foi dividido.

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