A conversa discorria sobre a importância de se falar bem em público.

Há, falavam os interlocutores, muitas técnicas de convencimento. O olhar. O movimento das mãos. As pausas. O tom da voz.

Falavam alto. Era possível compreender cada pequeno detalhe.

E era possível perceber a preocupação que tinham com o tal do convencimento.

Diziam que alguns se negavam a fazer o tal treinamento. Que se sentiam suficientemente seguros. Que sabiam, inclusive, enganar.

Foi aí que a prosa degringolou. As tais técnicas tinham uma finalidade: fazer parecer verdade o que verdade não era. Era quase que um curso sobre "a mentira" ou sobre "o engodo".

Comentaram sobre um deles, um político, que foi tão enfático na entrevista, que venceu. Que soube olhar, movimentar as mãos, dar a pausa correta, usar o correto timbre de voz, que ninguém mais o perturbaria com aquela história. Riram os dois da ardilosidade do companheiro. "Ele chorou na hora certa", vibrou um dos dois. "É importante, sensibiliza as pessoas", concordou o outro. "Tem que saber despertar o sentimento de pena adormecido". E riram e riam ainda mais falando quão ignorante são as pessoas. Qualquer coisa as leva para um lado ou para outro.

Ora, vejam. A oratória é uma arte antiga. Sobre ela se debruçaram muitos pensadores. Platão critica os que se valem de artifícios da linguagem para o convencimento. Aristóteles discorda do mestre e valoriza a retórica como uma arte de dizer bem o bem. Forma e conteúdo. É preciso verdade, queria o filósofo, para que o que deve ser dito seja dito e convença.

Era menina ainda quando disse que gostaria de ser freira ou médica ou professora. Um dia, mudou de ideia e afirmou que seria bailarina. Foi em uma festa, em um final de ano, em uma escola, em algum canto por aí. Cantaram, também, alguns meninos. Um coral preparado com esmero por uma professora que sorria ao seu piano vendo seus pupilos brilharem. Estavam todos uniformizados. Até os cabelos. Até o jeito de mexerem os braços e agradecerem os aplausos.

Era uma escola pública. E o público composto, majoritariamente, pelos familiares vibrava com os seus. A menina, a que já quis ser tanta coisa, procurava os pais. Como fazem as meninas e os meninos nessas apresentações. Há muitas pessoas, mas o olhar mais doce é revelado, primeiramente, aos pais.

Ela os encontrou. Estava vestida com a roupa de bailarina. A mãe não se continha de emoção. Era a única filha. A outra se fora prematuramente. Atropelada por um trem. Isso mesmo. Estavam alguns amigos atravessando a linha de ferro. Ela teve medo e parou. Eles insistiram, e ela foi. Foi, titubeante, e aconteceu o horror. Um corpo sem vida esmagado por um trem.

A irmã nunca se esqueceu disso. Ela não estava junto. Era muito pequena. Mas ouviu tantas vezes os relatos, viu tantas lágrimas e gritos de dor de sua mãe, de seu pai, que a história a frequentava desde sempre. Mas, ali, o sorriso dos pais parecia uma pausa à dor que viveram. Uma se foi. A outra brilhava.

Na canção de Chico Buarque, os dizeres são: "A dor da gente não sai no jornal". O compositor fala de uma tal Joana e de um João.

Desconhecidos, eram os dois. Nem o barraco existe mais.

A dor dos conhecidos, às vezes, sai no jornal. Há famosos por aí que qualquer movimento desperta enorme atenção. Há outros, porém, que passam desapercebidos. Mas, também, esses sentem dor.

Também esses choram os seus filhos, quando eles morrem. Mesmo quando os filhos erram.

Li, com atenção, a matéria sobre "bandido bom é bandido morto". Acompanhei várias histórias de jovens que morreram vítimas, talvez, de escolhas erradas. Sei que há uma imensa indignação da sociedade contra aqueles que agridem a própria sociedade. Vivi isso nos tempos em que pude cuidar da antiga FEBEM. Havia muito ódio por aqueles que ali estavam. E ódio deles mesmos por serem frutos de uma sociedade que não lhes deu oportunidades e que lhes cobrava pelos erros que cometeram. Erraram, muitos deles. Certamente. Não todos. Muitos não deviam estar ali. Mas estavam. E sofriam por ali estarem e pelo futuro.

Quem quer dar oportunidade a alguém que errou? Quem contrata alguém que passou por uma unidade de internação para adolescentes infratores ou pelo sistema penitenciário? Como eles poderão se recuperar, então? Mas por que optaram pelo erro? Optaram?

Que vida levaram? Que valores aprenderam? Que exemplos tiveram?

“Sim, mas erraram” - insistem alguns. “E quem não erra?” - pergunto. “Mas cometeram atos infracionais, cometeram crimes”.

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