Na canção de Chico Buarque, os dizeres são: "A dor da gente não sai no jornal". O compositor fala de uma tal Joana e de um João.

Desconhecidos, eram os dois. Nem o barraco existe mais.

A dor dos conhecidos, às vezes, sai no jornal. Há famosos por aí que qualquer movimento desperta enorme atenção. Há outros, porém, que passam desapercebidos. Mas, também, esses sentem dor.

Também esses choram os seus filhos, quando eles morrem. Mesmo quando os filhos erram.

Li, com atenção, a matéria sobre "bandido bom é bandido morto". Acompanhei várias histórias de jovens que morreram vítimas, talvez, de escolhas erradas. Sei que há uma imensa indignação da sociedade contra aqueles que agridem a própria sociedade. Vivi isso nos tempos em que pude cuidar da antiga FEBEM. Havia muito ódio por aqueles que ali estavam. E ódio deles mesmos por serem frutos de uma sociedade que não lhes deu oportunidades e que lhes cobrava pelos erros que cometeram. Erraram, muitos deles. Certamente. Não todos. Muitos não deviam estar ali. Mas estavam. E sofriam por ali estarem e pelo futuro.

Quem quer dar oportunidade a alguém que errou? Quem contrata alguém que passou por uma unidade de internação para adolescentes infratores ou pelo sistema penitenciário? Como eles poderão se recuperar, então? Mas por que optaram pelo erro? Optaram?

Que vida levaram? Que valores aprenderam? Que exemplos tiveram?

“Sim, mas erraram” - insistem alguns. “E quem não erra?” - pergunto. “Mas cometeram atos infracionais, cometeram crimes”.

Dia desses, ouvi uma senhora comentando com outra que era insuportável ver as crianças vestidas para a festa de Halloween.

Havia algumas crianças assim à nossa frente. Ouvi algo como: "O demônio mora nessas festas". Fiquei curioso com o desenrolar da história. Pareciam religiosas as duas. Falavam que o dia das bruxas não poderia ser de Deus. Insistiam na ideia de que o demônio estava por trás de tudo, além das questões de importar algo que não fazia parte da nossa cultura.

Dobraram a esquina e eu prossegui o meu caminho. As crianças ainda estavam à minha frente. Felizes. Brincando. Usando a palavra para afagos e bons comentários. Fiquei pensando, "será que o demônio mora nessas crianças ou nessas festas?". Não quero entrar em detalhes sobre a origem ou o significado da festa de Halloween ou de qualquer outra festa desta ou daquela cultura. Nem nas crenças daquelas duas senhoras que pareciam expelir ódio ao falarem. Religião para mim sempre foi religação. Reencontro com o amor, com a felicidade.

Mas, decididamente, não posso acreditar que o demônio faça morada naqueles espaços. Há outros muito mais propícios a ele.

Ele mora na guerra. Nas "guerras santas", inclusive. No assassinato de crianças inocentes desligadas da vida por religiosos fundamentalistas. Mora no ódio incontido de quem se julga superior por qualquer razão. Mora nos horrores da escravidão. Da de ontem, que por aqui tanta dor causou, e, na de hoje, em que persiste, teimosas, maltratando as gentes. Há tantas pessoas que são assassinadas brutalmente, porque ferem alguns princípios que uns julgam mais valorosos do que a vida. Basta fazer uma breve pesquisa sobre a morte de cristãos em muitos países do Oriente Médio. Cenas chocantes de pessoas que são assassinadas por não renunciarem à fé em Jesus. Há grupos radicais islâmicos matando seus irmãos islâmicos, porque alguma razão parece mais importante do que a vida.

Não sei bem a raça do cachorro que vi passeando com sua dona. Não sei se tem pedigree. Não sei nada da vida de ambos - a mulher e o cachorro.

Eu estava correndo, quando vi a alegria daquele pequeno cachorro com três patas. Ele saltitava chamando sua dona para continuar a caminhada. Latia. Reclamava, talvez. Tinha pressa de viver. Tinha vontade de sentir outros cheiros, de encontrar outros companheiros que, por aquela via, também passeavam.

O dia estava bonito. Os dias são bonitos quando estamos bem. Pessoas corriam. Outras caminhavam. Algumas conversavam. Outras ouviam alguma canção. Canções nos remetem a tempos e a pessoas. Histórias que, algum dia, vivemos ou gostaríamos de tê-las vivido. Os pensamentos também correm.

Continuei observando o cachorro, enquanto diminuía o meu ritmo. Encontrou um outro, um pouco maior. Era fêmea. Ele, macho. Menores possibilidades de disputas, de brigas. Cheiraram-se. Ameaçaram pular um no outro. Brincaram e se despediram, forçosamente, já que os seus donos continuavam a caminhar. Entre os cachorros, nenhum comentário sobre a ausência de uma das patas. A cadela pareceu nem ter reparado. Depois, ainda vi o encontro entre ele e um filhote. Risco menor ainda de alguma contenda. Os cachorros maiores respeitam os filhotes. Há uma lei que não precisou ser escrita e a que todos eles obedecem. Não podem brigar. Podem e devem brincar. Rolaram-se no chão. Abraçaram-se à sua maneira. Lambidas e partida. E nada de perguntas sobre a ausência da pata.
A dona comprou uma água de coco. Dividiu com o seu cachorro que não cabia em si de tanta gratidão. Olhavam-se com cumplicidade. Sabiam quanto eram importantes um ao outro.

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