Era uma cidade do interior. No interior, é comum as pessoas se conhecerem. Há menos gente. Menos famílias. É comum, inclusive, a pergunta: "Você é filho de quem?". Nas cidades grandes, dificilmente alguém se arvorará nesse diapasão.

Era uma cidade do interior. No interior das pessoas, sempre há sonhos. E isso é bom.

Foi com um desses sonhos que um homem entrou em um salão de cabeleireiro e foi logo mostrando uma foto. E dizendo sem o menor constrangimento: "Quero que o meu cabelo fique assim". E deu continuidade ao desejo, "Aliás, quero ficar assim. Igual a esse homem da foto".

O dono do salão, com a tesoura e o pente na mão, parou o corte que estava fazendo e, gentilmente, pediu a ele que aguardasse. Que já conversariam. O do sonho disse que aguardaria se ele garantisse que ficaria igual ao homem da foto. O dono olhou novamente para a foto e para o jovem e pediu, mais uma vez, que conversassem depois, que estava terminando um corte de cabelo. O jovem, um pouco menos paciente, disse que se não recebesse a resposta imediatamente iria ao concorrente daquele salão.

Era uma cidade pequena do interior. Dois salões apenas disputavam a clientela. O homem que estava tendo o seu cabelo cortado cochichou com o cabeleireiro, "Diga que vai ficar igualzinho". O cabeleireiro, filho de uma professora conhecida na cidade, um homem reconhecidamente correto, titubeou em dizer o que não acreditava.

O homem que estava tendo o seu cabelo cortado continuou o cochicho, "É melhor você dizer o que ele quer ouvir, não apenas para não perder o cliente, mas para não deixá-lo chateado". O cabeleireiro, com a tesoura na mão - o pente, ele já havia deixado na mesinha -, ficou ainda mais reflexivo. "Mentir, iludir, para não deixar alguém chateado"- falou consigo mesmo.

O jovem não entendeu a demora: "Vamos, trata-se de uma pergunta objetiva. Você me deixa com a cara dele ou não?". "Claro que deixa. Ele faz coisas impossíveis. Pode sentar-se aí e esperar. Você vai ficar igualzinho ao galã da foto". O cabeleireiro, que era de pouca prosa, pensava com ele mesmo, "Só posso fazer o possível".

Esperança era seu nome.

O segundo nome. O primeiro era Maria. Maria Esperança. E, depois, o nome de família.

Qual teria sido a intenção dos seus pais de chamá-la assim?

Quiseram dar a ela uma responsabilidade desde sempre? Um encargo? Um peso?

Ou vaticinaram que, ali, naquela nova vida, nasceria, como em todas as novas vidas, uma possibilidade de um mundo melhor.

Qual seria sua profissão? Teriam seus pais debatido sobre isso antes da escolha do nome? Certamente, não. Mas quem carrega no nome o nome de

Esperança fará a diferença em qualquer profissão.

E seus irmãos? E seus filhos? Como se chamariam os filhos da Esperança?

Moraria ela em uma grande cidade ou em uma pequena vila do interior? Como seria o seu interior?

Pensaram sobre isso os seus pais? Tiveram tempo de olhar para os amanhãs?

Ou escolheram o nome apenas por uma inspiração.

Quem os teria inspirado?

Cantarolava ininterruptamente. Olhava para o seu bichinho, presente de algum outro natal, e cantarolava, Colocava o bichinho de pelúcia em posição de quem adverte que é bom estar atento à canção. E dançava guiado pelo ritmo que emprestava à sua canção. Os outros estavam atarefados. Havia conversa e trabalho na cozinha. Palpites e ação. Mudanças de rumo. Pratos que precisavam estar prontos para que a ceia pudesse agradar. Era mais de uma cozinha. Uma tinha fogão a lenha, e outra, a gás.

Na sala, um presépio. Papel comprado em papelaria. Amassado. Tentando ser uma gruta. As personagens, os animais, cada qual no seu espaço. Deixavam apenas de fora o Menino Jesus. Ele deveria chegar à meia-noite. E a árvore de natal, montada com badulaques de muitos natais. Tudo ia se acumulando. Algumas crianças, as menores, ainda acreditavam em papai noel. Os adultos se dividiam em dizer ou não dizer que quem presenteava eram os pais de verdade.

A verdade é que não paravam. As mulheres ainda tinham horário no salão de beleza. Pés, mãos, cabelo, maquiagem. Os homens cuidavam da bebida. E jogavam prosa, enquanto esperavam. Alguns trabalhavam na véspera. E ficavam afoitos para encerrar logo e estar ali. Em família. E ele era imune a todas essas preocupações. Cuidava apenas de cantarolar. Sons mais altos. Sons mais baixos. Risos entremeando as músicas. Não havia dizeres em suas canções. Desconhecia dizeres o menino cantador. Eram sons apenas. Afinados pelo tempo ou pelo amor de quem os ouvia. Certamente ganharia presente. Mas não havia pedido nada. Não sabia pedir. Apenas olhava. E ria. E cantarolava.

Vez ou outra, algum adulto que recebia um telefonema de cumprimentos de algum parente de alguma outra cidade fazia um barulho sério para que ele diminuísse o som. E ele ria. Não fazia cara de aborrecimentos nem de contrariedade. Não sabia o que era isso. Sabia o que era sorrir. O que era dançar no centro da sala. O que era cantarolar para seu bichinho de pelúcia. O que era abraçar quando quisesse. Ah, abraço ele pedia. Vinha correndo e se jogava. E não era pequeno. Era preciso força para compreender a sinceridade de tanto amor. O riso e o abraço eram fáceis de compreender, mas a dor não. Via-se apenas que a música cessara e que as lágrimas caíam e caíam. Alguma parte estava doendo. Como saber qual? A cabeça? O estômago? As costas? Os dentes? Como saber? O que fazer para curá-lo? O amor conhecia os seus caminhos. E ele, de novo, estava no centro da sala.

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