Ela estava chegando. Eles estavam chegando. Foi o que ele me disse.

Ela é a mulher. Eles, a mulher e o filho que vai se formando dia a dia dentro dela.

Ele, o que me disse, é o pai. Um pai feliz.

Estão juntos há alguns anos. Ela já tem uma filha, fruto de uma outra história. Ele a cria, como se filha fosse. São felizes os três. E os gatos que vivem no apartamento deles. E, depois de muitos anos, vem ela com a notícia de que terão um filho.

A mãe dele já começou a costurar o que haverá de agasalhar o menino. Sim, já sabem que é um menino. Ele, que é flamenguista, está grávido das histórias que haverão de viver juntos. Dos jogos de futebol. Das corridas na praia. Dos passeios em família. Fala com os olhos acompanhando a voz. Fala da mulher que está chegando e me diz, com romantismos aos montes, que ela é linda, muito linda. Ela chega e nos cumprimenta. Disse que engordou muito. Ele sorri. Fica quase sem texto de tanta paixão. Não sei se é invenção minha, mas percebi os seus olhos marejados. Ela disse quanto engordou. Disse que não estava enjoando mais. Disse que a filha é quem havia decidido o nome do irmão. José Pedro. Disse que passou alguns dias em repouso. Ela foi dizendo e dizendo. E ele, com aqueles olhos, fitando a amada. Grávidos os dois, certamente. Ela voltou a falar em gordura. Foi quando ele protestou com delicadeza. Confessou ali que ela era a mulher mais linda do mundo. E que "a vida de nós dois" estava fazendo dos dois o casal mais feliz do mundo. Ela sorriu. Ele abaixou e acariciou a barriga. Conversou com o filho. Teve a certeza de que ele estava ouvindo. Ela acariciou o cabelo do marido, enquanto olhava para baixo e contemplava a conversa entre seus dois amores. Explicou que agora serão quatro. E mais os gatos.

Seu João vive no interior. E gosta de viver no interior. Não conhece as grandes cidades. Mas não sente falta. Gosta do lugar em que nasceu. Das montanhas que protegem seu vale. Dos riachos. Dos cantos que inauguram seus amanheceres. Identifica os pássaros. Os de canto curto. Os de canto prolongado. Os mais barulhentos. Os mais afinados. E não se incomoda com os galos madrugadores.

Gosta do mexer sem pressa a xícara de café, enquanto olha pela janela. A paisagem é sempre a mesma. Nunca é a mesma. Nos dias frios, aconchega-se em um velho cobertor de lã. Velho, mas valioso. Para ele. Pelos dias que foram aquecidos. Pela mulher que já partira.

Doente. Valente. Morreu Adélia no inverno. Fazia frio quando o sino da cidadezinha chorou as badaladas tristes. Os amigos foram. O padre lembrou as caridades que Adélia fazia. Era cantora, também. Cantora de Igreja. Afinadíssima como alguns passarinhos, na opinião de João. Por que morrera antes dele? Porque é assim. Preferiria que partissem juntos. Mas não dependeu dele. O que dependeu ele fez. Amou. Cuidou. Tomou os cafés sem pressa reparando na sua mulher. Que era sempre a mesma. Que era sempre diferente.

Conheceu Adélia ainda menina. Gostou do nome e do jeito. Tímida. Recatada. Ensaiou alguma aproximação. Foi feliz. Foram felizes. Os dias que viveram juntos anteciparam o que acredita João ser o Céu. Amor em abundância. O pouco que tinham, dividiam. Nada de trancafiamentos. Nada de mesquinharias. Nem nos sentimentos. Nem nas posses. Poucas posses tinham os dois. Não tiveram filhos. Tiveram momentos regados por dizeres e pausas. Juntos.

O encontro se deu entre o espermatozoide e o óvulo. E a vida foi encontrando sua forma. Pedaço por pedaço. Detalhe por detalhe.

Coração transmutou-se em corações. Os dois ritmando a vida. Uma chegando, e a outra autorizando. E o cordão, enfim, cortou-se. Apenas o cordão. O resto permaneceu.

Os corações jamais se distanciaram. E, nas pequenas quedas, no engatinhar, no caminhar, no chorar, o encontro aliviante. Nos cortes que doem, o poder cicatrizante dela. Da mãe. No seu colo, o recobrar de forças. Crianças ou adultos descansam ali. Choram ali. Realimentam ali os seus sonhos. Enquanto dormem o sonho bom, encontram o aconchego. E se valem do direito de estar ali. Tendo errado ou não. O amor de mãe suplanta erros e acertos. Não que não devam elas consertar o que se quebrou. Mas com jeito. Almas alquebradas precisam de algum cuidado. Elas têm.

Nos inícios, os choros são mais previsíveis. Depois, há razões para o debulhar que, talvez, elas desconheçam. A vida é cheia de paisagens. E de becos. E de lamas. E de água para a limpeza. Os sofrimentos virão sempre. Quem os teme desperdiça um sagrado aprendizado. Os erros também são companheiros desde sempre. Tolos os que apontam os erros dos outros. Como se fossem imunes. As mães sabem como soprar alívios. Primeiro, o abraço; depois, o dizer que educa. E as exigências de que melhoremos. Inverter a ordem nos enfraquece. Se o filho sobe na mesa e cai e se corta, primeiro elas cuidam do curativo, depois repreendem pelo abuso.

As mães, um dia, partem. E o milagre do encontro? Prossegue. Partem na sua forma física. Levam pedaços de nossa história. Deixam tristeza. Mas o encontro que se deu, desde os inícios, permanece. No que somos, elas estão. Onde estamos, elas são. Dos traços físicos aos recônditos da memória. Da criação à personalidade que fomos moldando. Elas sempre estão. São.

Já vi filho lamentar pelo amor economizado antes da partida da mãe. Já vi filho arrependido do dito e do não-dito. Das brigas que trouxeram dor. Das ausências que roubaram momentos preciosos. O que passou, passou. Talvez sirva de aprendizado aos que podem ter sua mãe por perto. Os que podem dizer. Os que podem ouvir.

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