As aulas estão recomeçando. Novos alunos. Novos desafios. Novas possibilidades.

Escolas se preparam para esses recomeços. Há eventos de formação de professores. Há reuniões, planejamentos. Há um fazer coletivo na expectativa de que tudo comece bem.

Gosto de viver essas experiências. Há anos tenho o privilégio de exercer o sagrado ofício do magistério. Gosto de conviver com professores. De ouvi-los, de trocar impressões, de – modestamente - motivá-los.

Foi em um desses eventos que ouvi dois relatos elucidativos. "Mais um ano, não é? Nossa, como as férias voaram! Já estou contando os dias para que tudo se acabe. É muito difícil, sabe, enfrentar uma sala de aula. Os alunos estão cada vez piores. Não há respeito algum. Nossa profissão está muito desvalorizada". A fala prosseguiu nesse tom. O desprazer de entrar em uma sala de aula e de, rotineiramente, fazer a mesma coisa. A falta de conexão com os alunos e com os seus sonhos. "Sonhos? Será? Eles não têm sonho nenhum. Têm é um vazio enorme, um desrespeito. Tenho pena deles. Aliás, tenho pena de mim por ter de enfrentá-los". Há alguma verdade nessas afirmações. É fato que se percebem alunos despreparados e desrespeitosos. Há muitos que vivem uma profunda alienação. Têm atitudes ora apáticas, ora agressivas. O dia a dia de um professor, certamente, não é tarefa das mais simples.

Uma amiga completou 80 anos. Uma festa agradável. Pessoas das mais diferentes idades circulavam. Entre bebidas e comidas, conversas. Falavam sobre a aniversariante e sobre o seu pacto com a felicidade. Em qualquer idade.

Perdeu ela um filho. Sofreu a inversão da lógica da vida ao ver, sem vida, o fruto do seu amor. Enterrou com dor e tentou compreender a despedida. Fácil não foi, mas ela prosseguiu.

Perdeu o marido. O companheiro que aplainou seus invernos. Que compreendeu suas mudanças. Que acolheu seu estilo livre de ser. Perdeu, certamente, muitos amigos. Alguns mestres que abriram a ela bibliotecas de ensinamentos que a ajudaram a ser quem é. Mas estava ali. Roupa nova. Cabelo feito. Maquiagem adequada. Passeando entre os seus. Dizeres bonitos. De vidas que se encontram e se renovam quando somos fortes.

Viver a felicidade em qualquer idade é desafio para os fortes. É isso. Para aqueles que compreendem a efemeridade da vida e o devir. O prosseguir. O curso das coisas. Encontros e despedidas. Mudanças. Os passos se tornam mais vagarosos, mas a mente se torna mais profunda. Há algo de nobre na maturidade. As ansiedades se acomodam um pouco. Há que se aprender com as experiências. As dores se repetem, mas já as conhecemos. Quando chegam, nós as recebemos com menos surpresas e aguardamos que partam. Que partam sem nos partir.

Era uma criança, apenas. Disse-me, com autoridade, que fará 4 anos. Brevemente.

Estávamos em uma igreja. Missa dominical. Ela, no meu colo. Foi quando ela soltou: "Onde está Deus?"

Eu a abracei forte. Carinhosamente.

Antes da resposta, ela prosseguiu: "Deus está ali. Os homens malvados fizeram isso com ele". Ela me mostrou uma cruz. E Cristo pregado na cruz.

Eu quis saber quem havia dito isso a ela. Ela disse que o pai explicou e que foi além. Quando os homens são maus, eles continuam pregando Deus na cruz. E prosseguiu me dizendo que agora eu já sabia, já que ela havia me explicado onde estava Deus.

Eu apenas sorri e a abracei. E disse baixinho: "Se, quando os homens são maus, eles continuam pregando o Filho de Deus na cruz, quando eles abraçam - assim como nós -, eles tiram o Filho Dele da cruz".

"Então vamos ficar sempre abraçados", ela disse, sem demora. E emendou: "O que mais faz com que Ele fique feliz"?

"O que você acha, já que você que me explicou onde Ele está?"

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