"Lembra-te que és pó e ao pó voltarás". Quem foi à celebração da quarta-feira de cinzas ouviu essa frase ou uma outra que fala de conversão.

As cinzas têm uma carga de simbolismo desde o Antigo Testamento. Jó, o homem que ousou resistir ao sofrimento, vestiu-se de cinzas. Mardoqueu, no Livro de Ester, veste-se de cinzas, em defesa de seu povo. As cinzas são resultantes do fogo, por exemplo. Ou do que é pelo fogo consumido. Na "fogueira das vaidades", na Florença dos tempos de Savonarola, depois de tudo o que era queimado, ficavam as cinzas.

A quarta-feira de cinzas marca o início da quaresma. São quarenta dias que preparam a Páscoa, maior festa do cristianismo. A quaresma é um tempo de penitência. Um tempo de pensar no tempo. E as cinzas nos ajudam, também, a pensar no tempo. E no que fazemos com ele.

"Lembra-te que és pó e ao pó voltarás". Ou, em outras palavras, esqueça a arrogância, as vaidades, a avareza. Nada te pertence. Nem as coisas. Nem as pessoas. Nem o tempo. Tudo tem um curso. Um tempo de existir. Um tombo, apenas. Uma queda. Uma batida. E voltamos a ser pó. Uma doença. Um acidente. Uma disfunção. E voltamos a ser pó.

E, ao voltarmos, o que levamos? Os acúmulos? As glórias? Os aplausos? Os bens que trancafiamos como propriedade eterna? Nada. Absolutamente nada. Mas, então, para que produzirmos? Para que trabalharmos? Para que estudarmos alimentados pelo sonho de vencer na vida? Fernando Pessoa, no início de sua “Tabacaria”, nos dá uma pista. "Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo".

O início do dizer poético é quase que uma explicação das cinzas, uma lembrança de que somos pó. De que nada somos. A fragilidade da vida atesta sua assertiva. Nada somos. Mas o que vem a seguir é animador. "Tenho em mim todos os sonhos do mundo". São os meus sonhos que me dão identidade. São os meus sonhos que me retiram da crueza do tempo. Os tempos duros passarão. As mágoas, as paixões, os desejos, passarão. As frustrações de hoje serão esquecidas, certamente. As derrotas de hoje só me incomodarão amanhã se eu permitir. Elas só têm significado quando a elas eu dou significado. Assim, também, um dizer de alguém que me feriu. Posso ampliá-lo ou reduzi-lo. Mudar o meu comportamento pelo comportamento errático de alguém é celebrar o erro. Prosseguir fazendo o certo é compreender o tempo.

Há vitórias que o tempo mostrará que não foram vitórias. Há derrotas que serão, com o tempo, comemoradas. Porque tenho em mim todos os sonhos do mundo. Todos os sonhos do mundo significam que os meus sonhos se agigantam quando sonho coletivamente. Que os meus sonhos para serem sonhos não podem ser mesquinhos. O mundo cabe em mim quando eu sonho em melhorar o mundo. Mas não sou nada. Sou pó. Sou um em bilhões. Mas os meus sonhos são diferentes de todos os outros. Também a minha digital. Também a minha identidade. Mas até a minha digital, que é única, voltará a ser pó. Antes disso, onde ela terá tocado? Midas transformava tudo o que tocava em ouro. Nos meus sonhos, no que gostaria de transformar tudo o que toco? Enquanto puder tocar. Os acúmulos se vão. Mas há algo que permanece. Há algo que permaneceu de muito, gente que já virou pó. Francisco de Assis também voltou a ser pó. Mas o que dele permaneceu? O que permaneceu de Castro Alves? Ou de Irmã Dulce? Ou de alguém que vivia na minha rua e que ninguém ouviu falar, mas que eu sei que melhorou o mundo.

Os sonhos coletivos. As cinzas, a efemeridade das coisas, os ajudaram a compreender onde deveriam deixar a digital, a marca, a vitória. Nos sonhos coletivos. No ajudar como uma escola de humanidades, no acolher como uma pedagogia do encontro, no viver como uma missão que transcende o ter. O que tivermos perecerá. O que deixarmos ficará.

"Lembra-te que és pó e ao pó voltarás". Essa oração diz muito. Nada de superioridades ou arrogâncias. Nada de apegos exagerados. Nada de mesquinharias. Tudo passa. O prazer ou a dor. O desejo ou a apatia. Passa.

As cinzas, resultado do que se é queimado, também significa que essas coisas passageiras podem ser queimadas dentro de nós mesmos. Para que caibam todos os sonhos do mundo. Esses não passam porque me fazem ter a certeza de que, embora um em bilhões, faço parte da melhoria desse mundo. Onde nasci. Pó. E de onde um dia vou me despedir. Pó.

Tenho em mim todos os sonhos do mundo. Para quem crê que o que vem é muito melhor, depois que voltarmos ao pó, o sonho coletivo é ainda mais necessário. O amor permanece. O amar nos faz permanecer. Depois da quaresma, a páscoa. O partir é um transformar. O fogo também gera luz. O pó haverá de ser o que nem em todos os sonhos deste mundo cabe. Vida.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O dia - RJ) | Data: 05/03/2017

E é de novo carnaval.

E é o dia da alegria. Há sambas e marchas e canções que evocam que é hora da tristeza ir embora e da alegria chegar. A festa foi se agigantando país afora. Ritmos e estilos diferentes foram ganhando adeptos. Escolas de samba, blocos de rua, frevos, axé, clubes, salões, bares, botequins. Cada um encontra o seu jeito de viver a festa.

A festa passa. Como dura pouco, já inventaram antecipações e prorrogações. Já criaram carnaval fora de época. Tudo isso para que a alegria possa reinar? Mas o reino da alegria só se dá no carnaval?

Há alguns que extravasam. Rompem suas durezas e se lançam a alimentar fantasias impróprias para outros dias. Há os que bebem em exaustão. Há os que pedem férias de amores duradouros para aproveitar o reinado de Momo com novos acompanhantes. Há os que se vestem do que gostariam de ser, mas não têm coragem nos dias comuns. E há os que desprezam os dias comuns, porque neles não há carnaval.

Moram em mim dois mundos.

Um me eleva. O outro, não.

Um me apresenta o dia como um canteiro de felicidades. O outro me faz desconfiar.

Um me traz pessoas e suas histórias para que eu possa compreender. O outro me esconde com medo dessa compreensão.

Um me elege para vencer obstáculos. O outro me coloca uma lente estranha que faz os obstáculos serem maiores do que de fato são.

Um me relembra o ontem para que as emoções me aqueçam. O outro me relembra o ontem para que eu saiba que nunca mais terei a força que tive.

Um me mostra o amanhã repleto de cenários que vão se modificando a cada ação minha. O outro mostra os mesmos cenários, cheios de feiuras, de doenças, de dependências.

Um me faz livre. O outro me escraviza.

Há tempos, convivo com os dois. Não me lembro, aliás, se houve algum tempo em que apenas um deles existisse. Se houve, eu ainda não era eu. Ou, se já era, não sabia. Há circunstâncias que me fazem alimentar o mundo que me alimenta e há outras em que alimento aquele que não me alimenta. Tento compreender as diferenças. As minhas diferenças. De vez em quando, deixo um ou outro mais forte dentro de mim. Nem sempre é simples.

Há momentos em que um vazio me preenche. Vazios não preenchem ninguém. Sim, mas o mundo que me diminui me traz um vazio com o qual fica difícil receber outros visitantes. E eu permito. E me lanço a pensar no que não me faz bem. E o vazio aumenta. E as minhas reações são diferentes daquelas que eu teria se tivesse alimentado o mundo que me alimenta. O que me alimenta me traz a generosidade, a fraternidade, a compreensão. Nada disso convive com o tal do vazio. O mundo que me faz egoísta, se eu pensasse um pouco, não me faria. Se eu pensasse que, depois de uma ação egoísta, nunca vem a felicidade, eu agiria de uma outra maneira. Mas, no vazio, o pensamento fica preguiçoso. E não percebo o que deveria perceber.

O mundo generoso não usa a tal lente estranha. Pelo contrário. Retira-a. Para que eu veja com os meus próprios olhos. Para que os meus olhos alimentem os meus sentimentos. Para que os meus sentimentos não briguem com os meus pensamentos. Para que os meus pensamentos sejam repletos de boas intenções. Para que as minhas boas intenções me levem a ações que me façam generoso.

A carência em demasia me faz exagerar. Exagerar no ciúme, na possessão, na vaidade. Esqueço o outro. E vivo em função das minhas idiossincrasias. Quero o aplauso, o reconhecimento, o elogio. Quero como um ser dependente. Quero como se me frustrasse, definitivamente, por não ser o centro das atenções. E, por isso, me diminuo. Soberbamente, me diminuo.

O mundo que me eleva também sabe das carências. Mas me faz supri-las de outras maneiras. Abraçar-me a mim mesmo nunca me satisfará. É o outro que me completa. Não como resultado da minha projeção. Mas como ouvinte de uma mesma canção que se dá no tempo do encontro. Nossos olhares ora se cruzam, ora contemplam o que o mundo generoso tem a nos oferecer. O mundo mesquinho me faz querer tudo. Ganancioso, vou me perdendo. O mundo generoso me faz encontrar as razões da partilha. Vou compreendendo que nada me pertence. Nem mesmo as pessoas que amo. Elas, um dia, partirão, e eu teria de, depois da despedida, agradecer pelo tempo do convívio. Se imaginar que algo ou alguém me pertence, terei, além de ter cometido um ledo engano, proporcionado a mim mesmo uma imensa frustração.

Os dois mundos moram em mim. Não sei se há como expulsar um dos dois. Se há, ainda não descobri. Mas estou aprendendo como deixar o que me fortifica mais forte, o que me alimenta mais alimentado, o que me eleva, maior.

Acordo pensando nisso. E nos momentos em que terei a oportunidade de fazer o que decidi. Vez ou outra me perco. Por alguma distração. Por algum alimento que dei, sem perceber, para o mundo que me diminui. Quando isso acontece, tento voltar ao que me alimenta, lembrar o que estou perdendo e, novamente, ganhar. Ganhar a luta renhida contra o que me apequena. E crescer. Com a maturidade necessária para escolher a escolha correta. E prosseguir.

Hoje, é domingo. Dia de alimentar o mundo bom. Amanhã, também. E, também, o dia que virá depois de amanhã. A tarefa é diária. Mas com ela se chega ao fim do dia muito melhor. No fim do dia, é o mundo generoso que tem o poder de me conferir um sono bom. O outro mundo me mantém acordado com um barulho incessante de desperdícios. Gosto de dormir bem. E gosto de acordar com vontade de viver!

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia - RJ) | Data: 19/02/2017

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