Há muitos que tiram as férias em julho. E saem em viagem. Viajam, alguns, para outros países. Viajam, outros, para cidades litorâneas ou montanhas ou casa de parentes. Há os que preferem viajar para o interior, para viver o sossego de dias calmos. Interior? Essa é uma viagem necessária.

Há que se ter coragem e sabedoria para tirar férias. Férias não são apenas interrupções de trabalho ou de estudo. Há os que não conseguem deixar de trabalhar. Conta uma antiga história que um carteiro trabalhava arduamente entregando cartas. A quem o perguntasse se era bom o que fazia, a resposta era decisiva. "É muito penoso. Entrego cartas, enfrento cães ferozes, endereços errados, portões enferrujados. Decididamente, é um árduo trabalho". Foi quando alguém resolveu amenizar. "É, mas pelo menos você tem as férias". O carteiro foi ainda mais incisivo. "Nossa, eu trabalho esperando as férias". O interlocutor quis saber. "E o que você faz, então, nas férias?". O carteiro pensou um pouco e optou pela sinceridade. "Bem, como eu não sei muito o que fazer, eu acabo acompanhando o meu substituto, fazendo companhia para ele, entregando cartas".

Reinventar os dias não é tão simples. Há tantos que sonham com a liberdade. Que se encontram trancafiados em relações não saudáveis. Mas, quando chega a tal liberdade, frustram-se na ausência de conflitos. Há os que se aposentam e adoecem. Mas não buscavam isso? Não queriam mais tempo para si mesmo e para os seus? O que houve, então? Faltou uma viagem ao interior. Férias reais.

Viajar pelo nosso interior é o que nos limpa de tantas sujeiras que vamos acumulando pelo excesso da falta de tempo. Estranho, não? Percorremos tecnologias e confortos para que tivéssemos mais tempo. O que aconteceu? Viajamos por redes tecnológicas, por mensagens de conhecidos ou estranhos, por assuntos variados, lambuzamo-nos de informações, algumas decididamente mentirosas. E, mesmo assim, passamo-las adiante. E o que melhorou?

Paulo é um dos milhões de desempregados que vivem a cotidiana angústia da procura e da espera. Sai cedo. Banho tomado. Cabelo arrumado. Barba feita. Faz as entrevistas que consegue. Fala com algumas pessoas. Envia currículos. Pesquisa aqui e ali.

Paulo decidiu não ficar parado. Conhece alguns que apenas aguardam que a sorte os empurre para outra oportunidade. Conhece outros que despencam em balcão de bar em busca de uma sensação melhor que os alivie da triste realidade. E outros ainda que vivem a ilusão de que tem os mesmos recursos de outros tempos.

Paulo tem dois filhos. Um tem 9 anos e o outro acabou de nascer. Sua mulher ainda goza da licença-maternidade. O que ela ganha mal garante o alimento da casa. Paulo nunca foi perdulário. Sempre guardou algum dinheiro para a eventualidade de dias difíceis. Os dias difíceis de Paulo foram virando semanas e meses. Os recursos findando. As esperanças lutando contra os tantos nãos que se multiplicaram.

É triste voltar para casa e encontrar o Júnior, seu filho, perguntando: "Então, papai, arrumou alguma coisa". Como Paulo gostaria de dizer que ´sim´. De abraçar o filho com todo o entusiasmo do mundo e dizer ´sim´. E de sorrir um sorriso demorado. E de brincar de felicidade novamente. Mas esse dia ainda não chegou.

A mulher o incentiva. Há amor na casa de Paulo e de Valéria. Júnior está na escola. Paulo conseguiu algum desconto e alguma dilação de prazo de dívidas acumuladas. O filho quer muito continuar na mesma escola. Foi quando se deu esse diálogo:

"Pai, vai ter a viagem da escola para Foz de Iguaçu. Dizem que é muito lindo, pai. Eu quero muito ir. Toda a minha turma vai. Eu quero ir, pai. Por favor. Por favor".

Foi um dia difícil. Havia uma possibilidade em uma boa indústria que estava contratando. Ele fez mais de uma entrevista. Animou-se. Teve a certeza de que daria certo. Não deu. A resposta veio exatamente no dia em que o filho falava da excursão.

Era um grupo de crianças conversando sobre a tal festa junina. Sabiam, inclusive, o que era quermesse. Um explicou sobre a trezena de Santo Antônio. E porque era ele o santo casamenteiro. O outro disse de São João e ainda houve quem falasse de São Pedro. E falaram dos doces e das danças. E dos enfeites. Foi quando surgiu a conversa sobre as bandeiras.

Bandeirinhas enfeitam as festas juninas e outras festas. Trazem uma certa alegria. Uma dança de cores que nos convida a olhar para o alto onde elas se encontram. Olhar para o alto é sempre bom. Retira-nos do chão. Relembra-nos a imensidão do céu.

Iam se reunir em um determinado dia para arrumar as bandeirinhas. Foi quando um dos meninos surgiu com uma ideia inusitada. Por que não intercalar, entre as bandeirinhas coloridas, algumas bandeiras com algumas palavras para melhorar o mundo?

Uma menina, com expressão de sabida, concordou e explicou como deveriam fazer. Alguns estavam atentos; outros, nem tanto. Mas o fato é que, naquelas crianças, havia algum sopro novo em tempos quentes, mesmo no inverno.

Crianças não vivem anestesiadas em tempos de dor. Sofrem, também. Sofrem com o sofrimento dos pais. Estão inseridas na sociedade. Crescendo de acordo com o que veem e sentem. Sorvem pequenas ou grandes doses de violência. Simbólica ou real. Apanham, nas ruas, espinhos cortantes. Estão ainda destreinadas, desprevenidas. Não entendem os porquês. Será que os adultos entendem?

O fato é que aquelas crianças iam além das danças, das quadrilhas, dos casamentos festivos. Queriam bandeiras. Bandeiras que melhorassem o mundo. Bandeiras são símbolos de uma causa, de um caminhar comum, de uma identidade. Seja a bandeira de uma nação, seja a bandeira da paz. O que queremos ver tremular nos amanhãs?

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