Um olhar. Apenas um olhar e a quietude. E o coral de vozes não mais a amedrontou.

Era uma menina. Ainda nos tempos da infância. E era tímida. E tinha os medos todos comuns à infância e a todas as idades.

Os pais moravam longe um do outro. Optaram por tentar outras escolhas. Filha única a menina. Era a mãe quem a preparava para ir à escola. O pai a visitava quando podia. Sentia falta do pai a menina, mas ressentia não conseguir dizer o que sentia. Ensaiava pedir alguma atenção. Chegava a pronunciar para si mesma o que haveria de dizer. Não dizia.

A mãe estava sempre em busca de algo que a menina não compreendia. Sobressaltada com a vida. Com as buscas. Com os fracassos.

A menina tinha medo do fracasso. Alguém disse que ela não cantava bem. Brincadeira estúpida, talvez. Mas a incomodou. E como! Quis sair do coral, mas não conseguiu dizer. E por lá ficou. O medo, nesse caso, foi-lhe companheiro.

Era o dia da apresentação. Mulheres e homens estavam no teatro. Entraram as crianças. A menina tinha o coração acelerado. Resolveu cantar baixo para não incomodar. Talvez assim não percebessem os erros da sua voz. Temia esquecer a canção. Temia ter alguma tontura. E o medo roubava dela o prazer de estar ali. Resolveu ficar um pouco escondida. Melhor que não a vissem. Com olhos baixos, teve um súbito de coragem e olhou. Um olhar. Depois de tantos que nada viram. Um olhar e o encontro com os olhos da mãe. Um sorriso. Um alívio. E mais um desejo.

O pai estava entrando. Ela viu ao longe. E não precisou de mais nada. Esqueceu-se de tudo. E cantou. E participou daquela sinfonia. Naquele tempo em que o tempo ainda não dizia quanto é apressado.

Minha mulher tem câncer. Um câncer que não tem cura. O diagnóstico foi o pior possível. Pouco tempo de vida.

Quando soubemos, olhamo-nos e ficamos algum tempo em silêncio. São quase 40 anos de vida comum. Nos nossos silêncios, filmes nos percorreram. Sei, pelo tempo que estamos juntos, o que ela pensou. Sabe ela o que eu pensei. Os médicos de hoje são pouco econômicos em tergiversações. Vão direto. Não sei decidir se é bom ou ruim.

Depois do silêncio, tentei algum dizer. Lembrei-me de tantos que se curam. A medicina evoluiu, e sei de muitos que enfrentaram cirurgias ou sessões de quimio e de radioterapia. E ficaram curados. E ganharam outro significado no viver. O médico não deu margens às minhas ilusões. Disse logo que não era o caso dela.

O fato ocorreu em um vagão de metrô. De um lado, um casal com o seu filho. Do outro, também. Um outro casal e uma outra criança.

No início da viagem, as crianças pareciam sem muito empolgação. Quietas. Os adultos falavam. De um e de outro lado. Falavam sobre coisas que nada significavam para as crianças. Mas as crianças estavam ali. Naquele vagão. Naquela viagem. Foi quando o pai disse ao filho: "Você é um encanto". Não sei muito bem o que o filho havia feito para receber esse afeto. O filho sorriu. Meneou sua cabeça no colo da mãe. E, do colo da mãe, via o pai. E assim prosseguiram.

Enquanto prestava atenção à cena, ouvi um outro dito que me pareceu o mesmo. Agora do outro lado. "Você é um encanto". Vi a criança chorando. A mãe dando de ombros. E o pai prosseguindo o seu dito de adulto. Não. A frase fora outra. Talvez empolgado pelo que ouvi e vi, imaginei se tratar do mesmo afago. O pai disse ao filho: "Você é um espanto". Não sei o que fez o menino para ouvir essa sentença.

O que é um espanto? Espanto pode ser surpresa, admiração. Mas pode ser assombro. E o filho chorou. E o choro foi tido como rotina, e os pais prosseguiram entre eles.

Página 5 de 14

Publicidade