Não sei bem a raça do cachorro que vi passeando com sua dona. Não sei se tem pedigree. Não sei nada da vida de ambos - a mulher e o cachorro.

Eu estava correndo, quando vi a alegria daquele pequeno cachorro com três patas. Ele saltitava chamando sua dona para continuar a caminhada. Latia. Reclamava, talvez. Tinha pressa de viver. Tinha vontade de sentir outros cheiros, de encontrar outros companheiros que, por aquela via, também passeavam.

O dia estava bonito. Os dias são bonitos quando estamos bem. Pessoas corriam. Outras caminhavam. Algumas conversavam. Outras ouviam alguma canção. Canções nos remetem a tempos e a pessoas. Histórias que, algum dia, vivemos ou gostaríamos de tê-las vivido. Os pensamentos também correm.

Continuei observando o cachorro, enquanto diminuía o meu ritmo. Encontrou um outro, um pouco maior. Era fêmea. Ele, macho. Menores possibilidades de disputas, de brigas. Cheiraram-se. Ameaçaram pular um no outro. Brincaram e se despediram, forçosamente, já que os seus donos continuavam a caminhar. Entre os cachorros, nenhum comentário sobre a ausência de uma das patas. A cadela pareceu nem ter reparado. Depois, ainda vi o encontro entre ele e um filhote. Risco menor ainda de alguma contenda. Os cachorros maiores respeitam os filhotes. Há uma lei que não precisou ser escrita e a que todos eles obedecem. Não podem brigar. Podem e devem brincar. Rolaram-se no chão. Abraçaram-se à sua maneira. Lambidas e partida. E nada de perguntas sobre a ausência da pata.
A dona comprou uma água de coco. Dividiu com o seu cachorro que não cabia em si de tanta gratidão. Olhavam-se com cumplicidade. Sabiam quanto eram importantes um ao outro.

Muitas cidades no Brasil voltam às urnas no domingo. Como no primeiro turno, há pouca movimentação. E mais uma vez as abstenções, os votos nulos e brancos podem ser os vitoriosos. O que leva alguém a não votar ou a anular o voto ou a votar em branco? Um protesto? Um silencioso protesto? As cidades assistiram a debates entre os candidatos. Acusações têm sido mais fortes do que propostas. O eleitor olha, não se sente representado e fica em silêncio. Qual a razão dessa apatia? O excesso de partidos, a falta de debates democráticos entre eles, a ausência de causas, de bandeiras, de sonhos?

O que é a política, afinal? A palavra vem de "polis", cidade. Do cuidar da cidade, do melhorar a cidade, do fazer com que a cidade seja cada vez mais do cidadão. De todos os cidadãos. O que me leva a votar neste candidato ou naquele ou a não votar? Terá a mídia alguma responsabilidade nessa apatia? Dificilmente boas práticas das gestões públicas são divulgadas.

Era final de um almoço e ela pediu um doce. Disse, justificando: "Doce é bom. Ajuda na digestão". Eu discordei dando algum espaço para alguma explicação. "Doce ajuda na digestão? Imagine! Pelo contrário. Doce acumula gordura. Doce tem calorias. Doce engorda. Bem, a não ser que tenham descoberto alguma nova teoria. Descobriram?". Perguntei e um filme passou pela minha cabeça de tantas teorias surgidas e desaparecidas que criaram mitos na alimentação. O ovo, por exemplo, já foi vilão antes de ser o queridinho dos que querem um corpo escultural. A manteiga e a margarina. As misturas proibidas e depois liberadas de alguns alimentos. Ah, lembrei até do leite com manga. Alguns se contorciam de medo das reações quando viam um desavisado tomar suco de leite com manga. E os regimes inusitados. O da Lua. O do limão.

"Teoria?" - ela perguntou, interrompendo minha viagem, mas também viajando. Olhando ao longe. Não era, na verdade, uma pergunta de alguém que buscava uma resposta. Era uma tentativa de revelação. "Queria entender alguma teoria que me explicasse as escolhas erradas que eu fiz na vida". E foi assim que, antes do doce, ela revelou o seu amargor.

O marido não tinha escrúpulos em humilhá-la. O tempo cobrou o seu preço. Ela já não era a menina que o conhecera em um jogo de tênis. Não sei sua idade. Ela não revela e não acho necessário perguntar. Pois bem, entre pausas e soluços, ela disse do medo da solidão, do medo de buscar outra vida, sem as humilhações, do medo, inclusive, de não saber o que fazer sem elas. "Os meus seios não são os mesmos de quando nos conhecemos".

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