Dia desses, ouvi uma senhora comentando com outra que era insuportável ver as crianças vestidas para a festa de Halloween.

Havia algumas crianças assim à nossa frente. Ouvi algo como: "O demônio mora nessas festas". Fiquei curioso com o desenrolar da história. Pareciam religiosas as duas. Falavam que o dia das bruxas não poderia ser de Deus. Insistiam na ideia de que o demônio estava por trás de tudo, além das questões de importar algo que não fazia parte da nossa cultura.

Dobraram a esquina e eu prossegui o meu caminho. As crianças ainda estavam à minha frente. Felizes. Brincando. Usando a palavra para afagos e bons comentários. Fiquei pensando, "será que o demônio mora nessas crianças ou nessas festas?". Não quero entrar em detalhes sobre a origem ou o significado da festa de Halloween ou de qualquer outra festa desta ou daquela cultura. Nem nas crenças daquelas duas senhoras que pareciam expelir ódio ao falarem. Religião para mim sempre foi religação. Reencontro com o amor, com a felicidade.

Mas, decididamente, não posso acreditar que o demônio faça morada naqueles espaços. Há outros muito mais propícios a ele.

Ele mora na guerra. Nas "guerras santas", inclusive. No assassinato de crianças inocentes desligadas da vida por religiosos fundamentalistas. Mora no ódio incontido de quem se julga superior por qualquer razão. Mora nos horrores da escravidão. Da de ontem, que por aqui tanta dor causou, e, na de hoje, em que persiste, teimosas, maltratando as gentes. Há tantas pessoas que são assassinadas brutalmente, porque ferem alguns princípios que uns julgam mais valorosos do que a vida. Basta fazer uma breve pesquisa sobre a morte de cristãos em muitos países do Oriente Médio. Cenas chocantes de pessoas que são assassinadas por não renunciarem à fé em Jesus. Há grupos radicais islâmicos matando seus irmãos islâmicos, porque alguma razão parece mais importante do que a vida.

Dia 2 foi dia de finados, dia dos mortos. Feriado. Dia para se lembrar dos que se foram. Para se lembrar da morte. Lembrar-se da morte para quê? Não é sufocante lembrar da morte? Tem gente que prefere não passar perto de cemitério e sai com a justificativa de que "quem não é visto não é lembrado". Tem gente que prefere não pensar o que virá a acontecer quando a vida resolver deixar de estar.

Pensar na morte tem a sua necessidade e a sua importância. Primeiramente, porque não há como decidir dela se livrar. Ela virá. No tempo que não nos foi dado conhecer. Nem mesmo alguns médicos que teimam em prever o dia do fim conseguem saber. E, depois, porque pensar na morte nos ajuda a compreender o poder que não temos. Somos frágeis. Um sopro, apenas, e a vida se cansa. E nem temos tempo para despedidas. Um passo em falso. Uma doença desnecessária - há doenças necessárias? Um acidente. E há tantos deles por aí. E a morte chega.Viver lembrando a morte nos ajuda a matar em nós tudo aquilo que nos rouba a vida. Ladrões de sonhos, de serenidades, de liberdade. Ladrões de corações. Ladrões de paz. De uma paz tão necessária, inclusive, para que vivamos mais e melhor. Brigas ali e aqui. Disputas. Arrogâncias. Ódios acumulados. Bobagens que nos trazem uma bagagem pesada para viver.

O poeta Quintana dizia: "A morte deveria ser assim: um céu que pouco a pouco anoitecesse e a gente nem soubesse que era o fim...”. O fato é que ninguém sabe quando e como será. O que se sabe é que o fim virá. É preciso lembrar isso. E não depende de nós. Depende de nós, entretanto, matar o que nos mata antes de morrer. Lembrar-se dos que se foram e conviver com a bela saudade. Chorar, se necessário. E prosseguir. Cultuando a brevidade da vida como uma oportunidade de celebrar cada instante. Nenhum deles volta. Nenhum deles se repete. Viva a vida. Mesmo sabendo que dura pouco.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 04/11/2016

Não sei bem a raça do cachorro que vi passeando com sua dona. Não sei se tem pedigree. Não sei nada da vida de ambos - a mulher e o cachorro.

Eu estava correndo, quando vi a alegria daquele pequeno cachorro com três patas. Ele saltitava chamando sua dona para continuar a caminhada. Latia. Reclamava, talvez. Tinha pressa de viver. Tinha vontade de sentir outros cheiros, de encontrar outros companheiros que, por aquela via, também passeavam.

O dia estava bonito. Os dias são bonitos quando estamos bem. Pessoas corriam. Outras caminhavam. Algumas conversavam. Outras ouviam alguma canção. Canções nos remetem a tempos e a pessoas. Histórias que, algum dia, vivemos ou gostaríamos de tê-las vivido. Os pensamentos também correm.

Continuei observando o cachorro, enquanto diminuía o meu ritmo. Encontrou um outro, um pouco maior. Era fêmea. Ele, macho. Menores possibilidades de disputas, de brigas. Cheiraram-se. Ameaçaram pular um no outro. Brincaram e se despediram, forçosamente, já que os seus donos continuavam a caminhar. Entre os cachorros, nenhum comentário sobre a ausência de uma das patas. A cadela pareceu nem ter reparado. Depois, ainda vi o encontro entre ele e um filhote. Risco menor ainda de alguma contenda. Os cachorros maiores respeitam os filhotes. Há uma lei que não precisou ser escrita e a que todos eles obedecem. Não podem brigar. Podem e devem brincar. Rolaram-se no chão. Abraçaram-se à sua maneira. Lambidas e partida. E nada de perguntas sobre a ausência da pata.
A dona comprou uma água de coco. Dividiu com o seu cachorro que não cabia em si de tanta gratidão. Olhavam-se com cumplicidade. Sabiam quanto eram importantes um ao outro.

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