Li, recentemente, um livro chamado "Gratidão", escrito por Oliver Sacks. O famoso neurologista traz, nesse livro, as experiências da consciência da finitude e da proximidade da morte. Ele morreu aos 82 anos de câncer. O livro é escrito depois dos 80. Sabia ele que eram os últimos momentos na terra. Mas o livro traz, de forma notável, o tema da "gratidão". Olhar a morte de perto dá medo. Saber que há mais dúvidas do que certezas. Imaginar o que não pode mais ser feito. São pensamentos que poderiam ocupar a mente por inteiro. Confessa, entretanto, o autor, que o sentimento predominante nele é o da Gratidão. Gratidão pelas escolhas que deram certo. Gratidão pelos amores, pelos afetos. Gratidão pelos caminhos que foram apresentando diferentes paisagens.

Aos 80, já se viveu muito. Já se perdeu muito. Já se ganhou muito. Aos 50, também. E também aos 30, por que não? Em cada fase da vida, é possível olhar para o tempo que passou e ser grato. Olhar para as pessoas que nos preencheram os instantes e sermos gratos. Olhar para dentro de nós mesmos e agradecermos o poder cicatrizante que fez com que tantas feridas deixassem de ocupar nossa atenção. Há, por aí, muita gente que sequer agradece ao outro em circunstâncias corriqueiras. Agradecer a quem abre a porta, a quem traz a conta no restaurante, a quem dá lugar, a quem nos vende alguma coisa. Agradecer a quem está limpando, a quem está cozinhando.

Na canção de Chico Buarque, os dizeres são: "A dor da gente não sai no jornal". O compositor fala de uma tal Joana e de um João.

Desconhecidos, eram os dois. Nem o barraco existe mais.

A dor dos conhecidos, às vezes, sai no jornal. Há famosos por aí que qualquer movimento desperta enorme atenção. Há outros, porém, que passam desapercebidos. Mas, também, esses sentem dor.

Também esses choram os seus filhos, quando eles morrem. Mesmo quando os filhos erram.

Li, com atenção, a matéria sobre "bandido bom é bandido morto". Acompanhei várias histórias de jovens que morreram vítimas, talvez, de escolhas erradas. Sei que há uma imensa indignação da sociedade contra aqueles que agridem a própria sociedade. Vivi isso nos tempos em que pude cuidar da antiga FEBEM. Havia muito ódio por aqueles que ali estavam. E ódio deles mesmos por serem frutos de uma sociedade que não lhes deu oportunidades e que lhes cobrava pelos erros que cometeram. Erraram, muitos deles. Certamente. Não todos. Muitos não deviam estar ali. Mas estavam. E sofriam por ali estarem e pelo futuro.

Quem quer dar oportunidade a alguém que errou? Quem contrata alguém que passou por uma unidade de internação para adolescentes infratores ou pelo sistema penitenciário? Como eles poderão se recuperar, então? Mas por que optaram pelo erro? Optaram?

Que vida levaram? Que valores aprenderam? Que exemplos tiveram?

“Sim, mas erraram” - insistem alguns. “E quem não erra?” - pergunto. “Mas cometeram atos infracionais, cometeram crimes”.

A vaidade é um tema recorrente para muitos estudiosos do comportamento humano.

É um termo bíblico, também, "vaidade das vaidades". Tudo, quando é vaidade, traz enormes riscos. Montaigne adverte que a vaidade nos leva à precarização de nós mesmos. Nos exageros, nós nos perdemos.

O que é a vaidade?Vaidade vem de vazio, vem do que é vão, do que é ilusório. A vaidade é a supervalorização da aparência em detrimento da essência.

O vaidoso busca um aplauso constante. Ele precisa ser admirado pelo outro o tempo todo. Pelo seu físico. Pela sua eloquência. Pela sua perfórmance intelectual.

O vaidoso tem dificuldade em ver alguém elogiando outra pessoa. É como se algo cortante o incomodasse: "O que o outro tem que eu não tenho?". O vaidoso tem uma tendência a errar mais, porque fica cego diante de si mesmo.

O artista vaidoso não tem a generosidade de compreender que nem sempre ele será o mais aplaudido do grupo.

O político vaidoso é incapaz de enxergar outros políticos ou outras pessoas. Pensa que o mundo gira em torno do seu umbigo. Um amante vaidoso não percebe os desejos do seu amor. Preocupa-se apenas consigo mesmo.

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