Era menina ainda quando disse que gostaria de ser freira ou médica ou professora. Um dia, mudou de ideia e afirmou que seria bailarina. Foi em uma festa, em um final de ano, em uma escola, em algum canto por aí. Cantaram, também, alguns meninos. Um coral preparado com esmero por uma professora que sorria ao seu piano vendo seus pupilos brilharem. Estavam todos uniformizados. Até os cabelos. Até o jeito de mexerem os braços e agradecerem os aplausos.

Era uma escola pública. E o público composto, majoritariamente, pelos familiares vibrava com os seus. A menina, a que já quis ser tanta coisa, procurava os pais. Como fazem as meninas e os meninos nessas apresentações. Há muitas pessoas, mas o olhar mais doce é revelado, primeiramente, aos pais.

Ela os encontrou. Estava vestida com a roupa de bailarina. A mãe não se continha de emoção. Era a única filha. A outra se fora prematuramente. Atropelada por um trem. Isso mesmo. Estavam alguns amigos atravessando a linha de ferro. Ela teve medo e parou. Eles insistiram, e ela foi. Foi, titubeante, e aconteceu o horror. Um corpo sem vida esmagado por um trem.

A irmã nunca se esqueceu disso. Ela não estava junto. Era muito pequena. Mas ouviu tantas vezes os relatos, viu tantas lágrimas e gritos de dor de sua mãe, de seu pai, que a história a frequentava desde sempre. Mas, ali, o sorriso dos pais parecia uma pausa à dor que viveram. Uma se foi. A outra brilhava.

Li, recentemente, um livro chamado "Gratidão", escrito por Oliver Sacks. O famoso neurologista traz, nesse livro, as experiências da consciência da finitude e da proximidade da morte. Ele morreu aos 82 anos de câncer. O livro é escrito depois dos 80. Sabia ele que eram os últimos momentos na terra. Mas o livro traz, de forma notável, o tema da "gratidão". Olhar a morte de perto dá medo. Saber que há mais dúvidas do que certezas. Imaginar o que não pode mais ser feito. São pensamentos que poderiam ocupar a mente por inteiro. Confessa, entretanto, o autor, que o sentimento predominante nele é o da Gratidão. Gratidão pelas escolhas que deram certo. Gratidão pelos amores, pelos afetos. Gratidão pelos caminhos que foram apresentando diferentes paisagens.

Aos 80, já se viveu muito. Já se perdeu muito. Já se ganhou muito. Aos 50, também. E também aos 30, por que não? Em cada fase da vida, é possível olhar para o tempo que passou e ser grato. Olhar para as pessoas que nos preencheram os instantes e sermos gratos. Olhar para dentro de nós mesmos e agradecermos o poder cicatrizante que fez com que tantas feridas deixassem de ocupar nossa atenção. Há, por aí, muita gente que sequer agradece ao outro em circunstâncias corriqueiras. Agradecer a quem abre a porta, a quem traz a conta no restaurante, a quem dá lugar, a quem nos vende alguma coisa. Agradecer a quem está limpando, a quem está cozinhando.

Na canção de Chico Buarque, os dizeres são: "A dor da gente não sai no jornal". O compositor fala de uma tal Joana e de um João.

Desconhecidos, eram os dois. Nem o barraco existe mais.

A dor dos conhecidos, às vezes, sai no jornal. Há famosos por aí que qualquer movimento desperta enorme atenção. Há outros, porém, que passam desapercebidos. Mas, também, esses sentem dor.

Também esses choram os seus filhos, quando eles morrem. Mesmo quando os filhos erram.

Li, com atenção, a matéria sobre "bandido bom é bandido morto". Acompanhei várias histórias de jovens que morreram vítimas, talvez, de escolhas erradas. Sei que há uma imensa indignação da sociedade contra aqueles que agridem a própria sociedade. Vivi isso nos tempos em que pude cuidar da antiga FEBEM. Havia muito ódio por aqueles que ali estavam. E ódio deles mesmos por serem frutos de uma sociedade que não lhes deu oportunidades e que lhes cobrava pelos erros que cometeram. Erraram, muitos deles. Certamente. Não todos. Muitos não deviam estar ali. Mas estavam. E sofriam por ali estarem e pelo futuro.

Quem quer dar oportunidade a alguém que errou? Quem contrata alguém que passou por uma unidade de internação para adolescentes infratores ou pelo sistema penitenciário? Como eles poderão se recuperar, então? Mas por que optaram pelo erro? Optaram?

Que vida levaram? Que valores aprenderam? Que exemplos tiveram?

“Sim, mas erraram” - insistem alguns. “E quem não erra?” - pergunto. “Mas cometeram atos infracionais, cometeram crimes”.

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