Foi no dia 4 de outubro, dia de São Francisco, que estes dois me surpreenderam.

Antes da missa, houve um acolhimento. Um aspirante (um jovem que se prepara para ser sacerdote franciscano) percorria a Igreja entregando pequenas flores. A Igreja cantava "Irmãos, minhas irmãs, vamos cantar nesta manhã, pois renasceu mais uma vez a criação nas mãos de Deus . Irmã, flor que mal se abriu, fala do amor que não tem fim, água irmã que nos refaz e sai do chão cantando assim...". Abaixei-me para pegar a pequena flor que caiu do pequeno Francisco. Ele estava em uma cadeira de rodas. Sorria muito. Mexia-se como podia. Pouco. A doença roubara-lhe muitos movimentos. Mas a alegria que brotava dos seus olhos e o esforço para algo conseguir cantarolar deixava o pai orgulhoso. "É meu filho. Meu lindo filho". "Estou vendo". "Chama-se Francisco". "É um lindo nome". "Também me chamo Francisco. Meus santos pais souberam escolher".

Apenas sorri. O pai tinha as mãos grossas de um trabalhador acostumado às rudezas. Um chapéu ficava sobre o banco. Um pano grande também estava ali. Depois, vi que ele servia para cobrir a cabeça do filho para percorrem as ruas até a casa. "Moramos aqui perto. Francisco gosta muito de missa", justificou. O filho me olhava. Olhos lindos. Sons difíceis de serem ditos. Cabeça de um lado a outro, com esforço. Eu sorria apenas. A missa estava começando. Olhava para o altar e para os Franciscos. A flor caiu novamente. Eu abaixei para pegar. O pai, também. Ele me autorizou a fazer o gesto e eu coloquei novamente na cadeira do seu filho, próxima de suas mãos quase imóveis. Ele olhou para mim. Um olhar de gratidão. Olhamo-nos mais um pouco. Quis dizer al go. Ele, também. Decidimos que não era necessário. Era bom estarmos ali. Durante as músicas, dos seus olhos escorriam lágrimas. Olhos do filho. Olhos do pai.

Tenho 6 anos.

Meu nome é Gabriel. Minha mãe dizia que me deu esse nome para que eu fosse um anjo. Minha mãe morreu faz pouco tempo. Quando nasci, ela já estava com câncer. Antes de mim, veio uma irmãzinha que viveu quase nada. Logo depois, minha mãe foi percebendo um caroço no seio. O médico, que talvez não tivesse tido a devida atenção, disse que era por causa do leite que endurecera por causa da morte da minha irmã. Ela aceitou a explicação e prosseguiu.

Ficou grávida de mim. Agradeceu a Deus. Eu nasci. Um outro médico logo percebeu que o antigo caroço não era leite endurecido, mas um tumor maligno. Ela teve que tirar o seio. Eu começava a entender a dor, quando o câncer começou, tempos depois, a ocupar-se do seu pulmão.

Eu ficava triste com suas crises. Aprendi o que era balão de oxigênio. Aprendi a chorar contido para não incomodar ainda mais e para estar pronto para ajudá-la. Meu pai sempre foi muito nervoso. Agora, piorou.

Minha mãe morreu. E no dia do meu aniversário. Um mês depois, meu pai já estava namorando. Fiquei muito triste, mas não pude dizer nada. Tenho 6 anos. Ele diz que nada entendo da vida dos adultos. Que tenho que lhe obedecer. A namorada do meu pai também é nervosa. Fala pouco comigo. Às vezes, grita. Diz que eu não paro quieto. Ela desarrumou toda a casa. Mexeu até nas santas da minha mãe. Até na imagem do Anjo Gabriel. Não sei onde ela colocou. Perguntei e ela gritou alguma coisa que eu não entendi. Meu pai brigou comigo, quando chegou. Disse que eu não podia ficar maltratando a sua namorada. Eu não sei que história ela contou. Mas fui eu que fui maltratado. Fiquei quieto. Ou melhor, queria ter ficado quieto. Mas não aguentei e comecei a chorar. Ele ralhou comigo. Disse que homem não chora. Que estava na hora de eu deixar de ser criança. Tenho 6 anos, repito.

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