Ela voltou para a escola. Para a faculdade. Faculdade de Direito. Na mesma sala em que o filho. No início, teve algum receio. Seria a mais velha da turma? Conseguiria conviver com os demais? E o filho? Acharia estranho ter a mãe na carteira ao lado? Rompeu essas incertezas e iniciou uma nova fase da vida. Filho e mãe iam juntos e estudavam juntos. Ela, viúva, teve de dar conta da criação deste e dos outros três filhos. Não teve como estudar antes. Mas sempre quis fazer faculdade de Direito. Gostava de falar sobre o exercício da cidadania, sobre os direitos e os deveres, sobre a justiça. Sempre teve horror a injustiças. Viveu isso na pele. Sofreu calvários intermináveis com a saúde precária do nosso país. Fez de tudo para que o marido fosse atendido com dignidade, não foi fácil, Teve de brigar com planos de saúde. A família fazia uma economia enorme para pagar, todo mês, o plano. E quando precisaram...mas o marido se foi. A dor da separação era confrontada com a certeza de que havia feito tudo o que estava ao seu alcance e que o marido também tinha o direito de descansar em paz.

E lá estava ela, agora, em uma nova fase da vida. Nas provas, ia muito bem. Estudava mais do que o filho. Tinha receios de, com a idade, ter mais dificuldade para memorizar o necessário. Não era isso que se mostrava, entretanto. Enquanto o filho frequentava algumas festas, ela frequentava o abajur e os óculos grossos para ler e reler a matéria, para estudar, para não ficar sem o conhecimento necessário.

Eis que nos conhecemos. Em uma palestra. Mãe e filho. Eis que ela me contou a sua história e detalhou as suas superações. Mas havia algo que a incomodava muito. O medo de falar em público. "Minhas mãos ficam suadas, eu ensaio uma coisa e sai outra, seguro o microfone longe da boca, coloco um ‘né?’ depois de cada frase, me perco, não sei como terminar e, quando acabo, sinto que não me saí bem". O filho discorda da mãe. Diz que ela está melhorando, que tem que vencer a insegurança. Ela volta ao tema e diz que, às vezes, sente que não tem o dom de falar em público.

Eu tento jogar alguma luz. "Dom? Falar em público se aprende. O medo é natural. Medos são enfrentados quando há uma causa maior. Fazer justiça é uma causa nobre. É um fim nobilitante. Ter uma causa é ter o conteúdo. Falar é a forma de levar esse conteúdo".

E prosseguimos na conversa. Ela quis saber da minha história. De como eu havia aprendido a falar. Viajei um pouco no tempo. Contei dos meus medos, das minhas inseguranças, dos meus equívocos.

Dia desses, entrei em um táxi e fui em direção a uma palestra em uma universidade de São Paulo. O rádio estava ligado, sintonizado em uma emissora cujos comentaristas tentavam decifrar os imbróglios do momento atual da política. O taxista que já havia me cumprimentado com muita gentileza, ouvia atento aos comentários, e resolveu dar a sua opinião. "Sabe o que está faltando na política? Um sonho. Falta um sonho", insistiu ele.

Dei margem à conversa. Quis entender melhor. “O que seria um sonho?”. E ele prosseguiu: "Cada um pensa em si. Ninguém se preocupa com ninguém. Um é mais ambicioso do que o outro. Quem é deputado não quer deixar de ser. Não vai apoiar reforma política que coloque em risco a sua reeleição. Então, não vai ter reforma política". Eu ia concordando e dando espaço para que ele prosseguisse: "O sujeito ganha para prefeito e não está satisfeito. Já quer ser governador. Ganha para governador e só pensa em ser presidente. É muita ambição e nenhum sonho".

Esperar é um verbo que, necessariamente, é conjugado por todas as pessoas. Por toda a vida.

A espera pode ser agradável como pode ser penosa. A espera de um amor que vem ao longe, acenando, trazido por uma maré boa.

A espera de um filho. O tempo do peso. O tempo da dor. O tempo das incertezas há de ser recompensado com uma vida nova que surge. Quantas esperas se sucederão por esse mesmo filho. Noites indormidas em intermináveis adolescências. E o barulho da chegada avisa à espera que volte em uma outra ocasião. Sono bom quando o filho descansa ao lado. A espera de um amigo. Afetos amenizam ausências e acalmam ansiedades. Os ansiosos sofrem mais com as esperas. Querem, para hoje, o que só o amanhã pode resolver. Brigam com o tempo. Brigas inglórias. O tempo é que decide o tempo de decidir.

Feridas têm o seu tempo de cicatrização. Dores de amor, também. Um amigo chorava, há alguns dias, pela mulher que resolveu partir. "Como viver sem ela? Como mudar o rumo de tudo? E os projetos em comum? E os sonhos compartilhados? E os entardeceres prometidos?", Chorou dias e noites. Poucos, penso eu. E eis que subitamente surgiu um novo amor. "Dará certo?" - perguntava-me ele. "Comece, espere para ver o que acontece. Tente não comparar, tente usufruir da brisa nova, desconhecida". Um amor novo traz sentimentos contraditórios. Há uma avidez para que tudo dê certo. Há um medo pelo recomeço. Tudo de novo. Tudo diferente.

A espera de um encontro. Um encontro desses encontrados em maneiras antigas ou novas. Em uma esquina ou em uma página. Em um olhar ou em um revelar. Quem somos nós que buscamos sempre? Que carecemos sempre? Que nos acotovelamos para ver quem passa na avenida? Quantas avenidas presenciaram desfiles de presenças aguardadas. Nas janelas, debruçavam-se sonhos, esperanças, espera.

A queda de um avião é dor horrenda. Que ousadia é essa da morte de levar o meu amor? O amor da outra, do outro. O pai, a mãe, o filho, a filha, o amigo, o jogador, o torcedor. Torcemos para que o nosso amor seja protegido. Para que fique. Para sempre.

Não há como ficar para sempre. Depois do adeus, o luto, a dor. Depois, a espera de dias melhores. O inverno não dura para sempre. O frio cobra seu preço e depois vai. É preciso viver as outras estações.

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