Era final de um almoço e ela pediu um doce. Disse, justificando: "Doce é bom. Ajuda na digestão". Eu discordei dando algum espaço para alguma explicação. "Doce ajuda na digestão? Imagine! Pelo contrário. Doce acumula gordura. Doce tem calorias. Doce engorda. Bem, a não ser que tenham descoberto alguma nova teoria. Descobriram?". Perguntei e um filme passou pela minha cabeça de tantas teorias surgidas e desaparecidas que criaram mitos na alimentação. O ovo, por exemplo, já foi vilão antes de ser o queridinho dos que querem um corpo escultural. A manteiga e a margarina. As misturas proibidas e depois liberadas de alguns alimentos. Ah, lembrei até do leite com manga. Alguns se contorciam de medo das reações quando viam um desavisado tomar suco de leite com manga. E os regimes inusitados. O da Lua. O do limão.

"Teoria?" - ela perguntou, interrompendo minha viagem, mas também viajando. Olhando ao longe. Não era, na verdade, uma pergunta de alguém que buscava uma resposta. Era uma tentativa de revelação. "Queria entender alguma teoria que me explicasse as escolhas erradas que eu fiz na vida". E foi assim que, antes do doce, ela revelou o seu amargor.

O marido não tinha escrúpulos em humilhá-la. O tempo cobrou o seu preço. Ela já não era a menina que o conhecera em um jogo de tênis. Não sei sua idade. Ela não revela e não acho necessário perguntar. Pois bem, entre pausas e soluços, ela disse do medo da solidão, do medo de buscar outra vida, sem as humilhações, do medo, inclusive, de não saber o que fazer sem elas. "Os meus seios não são os mesmos de quando nos conhecemos".

A rede informacional vem mudando nossas formas de relacionamento. As românticas cartas deram lugar aos e-mails que deram lugar às mensagens em facebook, twitter, instagram, entre outros. Os pagamentos feitos em agências bancárias deram lugar à agilidade de transferências online. As pesquisas nas velhas enciclopédias foram perdendo espaços para o google. E outros tantos caminhos poderiam ser visitados. Na medicina. Nos laboratórios e na fabricação de remédios ou carros. Nas planilhas de custos. Nos projetos. Nas escrituras de livros ou de quaisquer outras informações. Na comunicação com o outro - facetime, whatsapp, messenger - e na relação com o conhecimento.

Mas essas conquistas trazem problemas. E muitos. Há um deles que vem chamando a atenção de pesquisadores do comportamento humano. O ódio na rede. O ódio na internet. Sempre ouve atiradores de pedras. Alguns se revestindo de poder religioso, outros na clandestinidade de algum grupo radical, outros no criminalidade pura de um nada puro jeito de se dar bem na vida. As pedras na internet, ou o ódio, são facilmente observáveis.

Desde criança, frequento a Basílica de Nossa Senhora Aparecida. Um Santuário da Fé. Vou até lá para rezar, para visitar a casa da mãe, para dizer os meus agradecimentos e pedidos. Aparecida é bem próxima a Cachoeira Paulista, a cidade em que nasci. Fica no vale do Paraíba. Abençoado vale que repousa entre as serras do mar e da mantiqueira. Tenho saudade daquele chão. E de tantas pessoas boas que ali alimentaram minha fé.

Estou longe, mas perto. Nas lembranças e na presença, quando posso. Vou em família, muitas vezes. Minha mãe se emociona sempre. Meu pai que gostava tanto de ir, hoje, já não está mais por aqui. A Igreja é acolhedora. Pessoas chegam por todos os lados. Ônibus lotados, carros e até mesmo a pé. Peregrinos que caminham dias e dias por um milagre. Outros em agradecimento à graça alcançada. Chegam em busca de conforto, de abrigo, de colo sagrado. E é bonito de se ver os fiéis desfilando suas dores e seus sonhos.Fico observando a simplicidade das pessoas. Os olhos suplicantes. Os joelhos no chão. As canções que saem da alma.Uma mãe pedindo pela cura do filho. Um filho pedindo pela cura da mãe. Uma mulher dizendo que vai se submeter a uma cirurgia e lembrando que tem filhos para ver crescer. Um pai prometendo uma vela gigante se o filho for curado do câncer.

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