Era um almoço em um dia comum. Dias comuns se sucedem e nos surpreendem quando permitimos. Sentei-me em uma cadeira confortável junto a uma mesa com alimentos preparados com muito cuidado.

Eles gostam de cuidar. Gostam de receber amigos. Gostam de palavras que unem. Estão unidos há 40 anos.

Carlos teve uma indisposição no dia anterior. Comeu alguns doces que não lhe caíram bem. Tomou algum medicamento e sentou-se para almoçar algo leve.

Beth sabia disso. Beth sabe de tudo o que se passa com o seu amor. Trabalham juntos. Sonham juntos. Vivem juntos uma juventude que desafia o tempo. Ah, eram muito jovens quando se viram pela primeira vez. Nem imaginavam o quanto seriam capazes de construir.

Carlos coloca pouca comida em seu prato. Beth presta atenção. Insiste que coma um pouco mais, mas que prefira o que é mais saudável. Para que melhore. Para que fique bem o quanto antes. Carlos parece estar distraído com a conversa. Ela insiste. Eles se olham. E foi aí que nasceu este artigo. Os olhares se cruzam, olhares de amor. Um amor que cuida, que se preocupa, que compreende que a vida de um e de outro ganha mais significado por estarem juntos.

Conheço outros casais assim. É difícil imaginar um sem o outro. Os tempos das labaredas da paixão dão lugar a uma brisa gostosa do amor. Do amor que respeita. Do amor que compreende. Do amor que se doa.

Há muitos que tiram as férias em julho. E saem em viagem. Viajam, alguns, para outros países. Viajam, outros, para cidades litorâneas ou montanhas ou casa de parentes. Há os que preferem viajar para o interior, para viver o sossego de dias calmos. Interior? Essa é uma viagem necessária.

Há que se ter coragem e sabedoria para tirar férias. Férias não são apenas interrupções de trabalho ou de estudo. Há os que não conseguem deixar de trabalhar. Conta uma antiga história que um carteiro trabalhava arduamente entregando cartas. A quem o perguntasse se era bom o que fazia, a resposta era decisiva. "É muito penoso. Entrego cartas, enfrento cães ferozes, endereços errados, portões enferrujados. Decididamente, é um árduo trabalho". Foi quando alguém resolveu amenizar. "É, mas pelo menos você tem as férias". O carteiro foi ainda mais incisivo. "Nossa, eu trabalho esperando as férias". O interlocutor quis saber. "E o que você faz, então, nas férias?". O carteiro pensou um pouco e optou pela sinceridade. "Bem, como eu não sei muito o que fazer, eu acabo acompanhando o meu substituto, fazendo companhia para ele, entregando cartas".

Reinventar os dias não é tão simples. Há tantos que sonham com a liberdade. Que se encontram trancafiados em relações não saudáveis. Mas, quando chega a tal liberdade, frustram-se na ausência de conflitos. Há os que se aposentam e adoecem. Mas não buscavam isso? Não queriam mais tempo para si mesmo e para os seus? O que houve, então? Faltou uma viagem ao interior. Férias reais.

Viajar pelo nosso interior é o que nos limpa de tantas sujeiras que vamos acumulando pelo excesso da falta de tempo. Estranho, não? Percorremos tecnologias e confortos para que tivéssemos mais tempo. O que aconteceu? Viajamos por redes tecnológicas, por mensagens de conhecidos ou estranhos, por assuntos variados, lambuzamo-nos de informações, algumas decididamente mentirosas. E, mesmo assim, passamo-las adiante. E o que melhorou?

Paulo é um dos milhões de desempregados que vivem a cotidiana angústia da procura e da espera. Sai cedo. Banho tomado. Cabelo arrumado. Barba feita. Faz as entrevistas que consegue. Fala com algumas pessoas. Envia currículos. Pesquisa aqui e ali.

Paulo decidiu não ficar parado. Conhece alguns que apenas aguardam que a sorte os empurre para outra oportunidade. Conhece outros que despencam em balcão de bar em busca de uma sensação melhor que os alivie da triste realidade. E outros ainda que vivem a ilusão de que tem os mesmos recursos de outros tempos.

Paulo tem dois filhos. Um tem 9 anos e o outro acabou de nascer. Sua mulher ainda goza da licença-maternidade. O que ela ganha mal garante o alimento da casa. Paulo nunca foi perdulário. Sempre guardou algum dinheiro para a eventualidade de dias difíceis. Os dias difíceis de Paulo foram virando semanas e meses. Os recursos findando. As esperanças lutando contra os tantos nãos que se multiplicaram.

É triste voltar para casa e encontrar o Júnior, seu filho, perguntando: "Então, papai, arrumou alguma coisa". Como Paulo gostaria de dizer que ´sim´. De abraçar o filho com todo o entusiasmo do mundo e dizer ´sim´. E de sorrir um sorriso demorado. E de brincar de felicidade novamente. Mas esse dia ainda não chegou.

A mulher o incentiva. Há amor na casa de Paulo e de Valéria. Júnior está na escola. Paulo conseguiu algum desconto e alguma dilação de prazo de dívidas acumuladas. O filho quer muito continuar na mesma escola. Foi quando se deu esse diálogo:

"Pai, vai ter a viagem da escola para Foz de Iguaçu. Dizem que é muito lindo, pai. Eu quero muito ir. Toda a minha turma vai. Eu quero ir, pai. Por favor. Por favor".

Foi um dia difícil. Havia uma possibilidade em uma boa indústria que estava contratando. Ele fez mais de uma entrevista. Animou-se. Teve a certeza de que daria certo. Não deu. A resposta veio exatamente no dia em que o filho falava da excursão.

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