Dia desses, entrei em um táxi e fui em direção a uma palestra em uma universidade de São Paulo. O rádio estava ligado, sintonizado em uma emissora cujos comentaristas tentavam decifrar os imbróglios do momento atual da política. O taxista que já havia me cumprimentado com muita gentileza, ouvia atento aos comentários, e resolveu dar a sua opinião. "Sabe o que está faltando na política? Um sonho. Falta um sonho", insistiu ele.

Dei margem à conversa. Quis entender melhor. “O que seria um sonho?”. E ele prosseguiu: "Cada um pensa em si. Ninguém se preocupa com ninguém. Um é mais ambicioso do que o outro. Quem é deputado não quer deixar de ser. Não vai apoiar reforma política que coloque em risco a sua reeleição. Então, não vai ter reforma política". Eu ia concordando e dando espaço para que ele prosseguisse: "O sujeito ganha para prefeito e não está satisfeito. Já quer ser governador. Ganha para governador e só pensa em ser presidente. É muita ambição e nenhum sonho".

Esperar é um verbo que, necessariamente, é conjugado por todas as pessoas. Por toda a vida.

A espera pode ser agradável como pode ser penosa. A espera de um amor que vem ao longe, acenando, trazido por uma maré boa.

A espera de um filho. O tempo do peso. O tempo da dor. O tempo das incertezas há de ser recompensado com uma vida nova que surge. Quantas esperas se sucederão por esse mesmo filho. Noites indormidas em intermináveis adolescências. E o barulho da chegada avisa à espera que volte em uma outra ocasião. Sono bom quando o filho descansa ao lado. A espera de um amigo. Afetos amenizam ausências e acalmam ansiedades. Os ansiosos sofrem mais com as esperas. Querem, para hoje, o que só o amanhã pode resolver. Brigam com o tempo. Brigas inglórias. O tempo é que decide o tempo de decidir.

Feridas têm o seu tempo de cicatrização. Dores de amor, também. Um amigo chorava, há alguns dias, pela mulher que resolveu partir. "Como viver sem ela? Como mudar o rumo de tudo? E os projetos em comum? E os sonhos compartilhados? E os entardeceres prometidos?", Chorou dias e noites. Poucos, penso eu. E eis que subitamente surgiu um novo amor. "Dará certo?" - perguntava-me ele. "Comece, espere para ver o que acontece. Tente não comparar, tente usufruir da brisa nova, desconhecida". Um amor novo traz sentimentos contraditórios. Há uma avidez para que tudo dê certo. Há um medo pelo recomeço. Tudo de novo. Tudo diferente.

A espera de um encontro. Um encontro desses encontrados em maneiras antigas ou novas. Em uma esquina ou em uma página. Em um olhar ou em um revelar. Quem somos nós que buscamos sempre? Que carecemos sempre? Que nos acotovelamos para ver quem passa na avenida? Quantas avenidas presenciaram desfiles de presenças aguardadas. Nas janelas, debruçavam-se sonhos, esperanças, espera.

A queda de um avião é dor horrenda. Que ousadia é essa da morte de levar o meu amor? O amor da outra, do outro. O pai, a mãe, o filho, a filha, o amigo, o jogador, o torcedor. Torcemos para que o nosso amor seja protegido. Para que fique. Para sempre.

Não há como ficar para sempre. Depois do adeus, o luto, a dor. Depois, a espera de dias melhores. O inverno não dura para sempre. O frio cobra seu preço e depois vai. É preciso viver as outras estações.

Quem entende a morte?

Quem entende sua pressa?

Quem entende a necessidade de interrupções prematuras? Vidas cheias de vidas que se vão.

No meio da dor, um vídeo circulava. A alegria daqueles jovens. Os ditos sobre o futuro. As brincadeiras. A irreverência. Jogaram juntos tantas vezes. Venceram. Perderam. Comemoraram. Lamentaram. Estranharam-se, certamente, pela falta de garra em uma outra partida. Abraçaram-se em jogadas certeiras. Choraram em vitórias. Falaram sobre erros. No campo e fora dele. Reclamaram da não escalação. Na escalada da vida, foram companheiros. Gratos, certamente, pela intensidade com que viveram. A gratidão, inclusive, por estarem juntos naquele voo.

Era a alegria final. Pouco depois, o voo voava em outra direção.

A fé nos aquece nesses dias frios. Ilumina-nos na escuridão das perguntas sem respostas.

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