Paulo e Fátima são namorados. Faz algum tempo. Conheceram-se em uma esquina em uma antiga viela na velha Portugal. Ele, brasileiro; ela, nascida no Porto. Viram-se pela primeira vez quando Paulo pedia uma informação. Ela o informou. Olharam-se com delicadeza e, depois de caminharem por algum tempo, resolveram não mais se despedir.

Paulo trabalha com turismo, Fátima é professora. O primeiro inverno na Europa não foi fácil para Paulo, carioca da Tijuca. Acostumado ao calor, precisou de roupas diferentes e do diferente jeito de Fátima para o necessário agasalhar.

Estavam agasalhados, os dois, no dia em que portugueses e brasileiros lotaram um tradicional teatro do Porto para aplaudir Chico Buarque de Holanda.

Chico começou sua Caravana na timidez habitual. O público foi ao delírio. Autor de letras que surpreendem pela diversidade de temas e de ditos poéticos, embaixador de um estilo de fazer da canção um grito de liberdade, de identidade, de amor. Conhece Chico a alma da mulher e a descreve com maestria. Percorre os sentimentos humanos de separação e de encontro, a gota d'água da desatenção ou o tempo da delicadeza.

A música, como tem de ser, foi tomando o ambiente. Mulheres e homens cantavam juntos. Chico sorria. Do seu jeito. De quem disfarça a genialidade. De quem compreende o ofício de levar sua Caravana além-mar.

Na terra de Camões e de Fernando Pessoa, Chico, um brasileiro, é ovacionado. Os gritos de gênio se misturam aos aplausos pedindo bis. Ele volta. Canta mais. Termina. O púbico quer ficar. Volta novamente e, novamente, emociona.

Foi no domingo passado a grande festa do Espírito Santo. Há muitas reflexões que podem ser continuadas em nosso olhar. Vamos a duas, daqueles fatos, daquele dia, daquele momento espiritual que não se encerra em uma semana, nem em um século. Há dois mil anos, estavam os que, com Jesus, aguardavam a chegada do Espírito Santo.

Duas reflexões? Vamos lá. A primeira sobre o perdão. A segunda sobre a comunhão.

Perdão? Os que leram um pouco da história dos últimos dias de Jesus devem se lembrar do discípulo que Ele chamou para que fosse a pedra angular da comunidade que dele haveria de nascer: "Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei minha Igreja". Pois bem, Pedro, antes do cantar do galo, negou Jesus três vezes. Exatamente isso, no momento em que Jesus mais precisava, Pedro chegou a dizer que sequer o conhecia. Poucos dias haviam se passado da morte de Jesus. E Pedro, naquele dia, estava lá, aguardando o Espírito Santo, com a mãe de Jesus. Maria poderia ter expulsado Pedro, poderia ter desabafado: "Você traiu meu filho!". Poderia ter dito: "Com você, eu não fico!". O que fez Maria? Apenas compreendeu. O medo de Pedro não fez dele um homem menor. A compreensão é irmã do perdão.

A outra reflexão é sobre as tantas línguas que estavam por lá. Havia gente de toda parte. E cada um falava uma língua. Mas quando os discípulos, cheios do Espírito Santo, começaram a falar, todos compreenderam o que eles diziam. Ninguém precisou traduzir nada. O Espírito respeitou cada um, com sua língua, com sua história, com seu jeito de ser, com suas imperfeições e seus medos. Porque é assim que deve ser. Nada de superioridade. Nada de raça pura. Nada de hegemonias. Somos todos sedentos de um fogo que nos ilumine e nos aqueça. Somos todos errantes, carentes de perdão, habitantes de medos tantos que nos levam a negar a quem mais amamos. Mas depois corrigimos. E, quando encontramos uma Maria em nossa espera, os erros se vão mais rapidamente.

Esperar o Espírito Santo não é apenas para um dia. É fazer dos dias presentes de Deus, razões especiais para existir.

Maria perdoou Pedro que perdoou a si mesmo. O auto perdão também não é simples. E partiram eles para a comunhão. Com línguas, raças, jeitos de ser e de viver diferentes, mas com a consciência de que aqueles dias existiram para que os dias de hoje pudessem ser melhores. Que sejam.

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia - RJ) | Data: 27/05/2018

O dia no Rio de Janeiro estava lindo. Hector era quem dirigia o carro. Monica olhou a paisagem e não economizou nos ditos nascidos de mais um espanto. É assim que ela define a cidade. Espanto, aqui, significa encantamento, êxtase, emoção. As imagens que vão desfilando pelos olhos surpreendem mesmo que sejam vistas todos os dias. Monica fez o comentário e, em forma de oração, externou sua crença. Deus existe. Deus caprichou em sua obra. É um Artista perfeito.

Hector ouviu os comentários, concordando com a cabeça. Durante um silêncio qualquer, ele resolveu desabafar. "Deus caprichou, mas o homem estragou". E prosseguiu comentando sobre a falta de cuidado com a cidade, sobre o abandono, sobre os desmandos que já são conhecidos.

Monica voltou ao que foi dito. "Deus caprichou, mas o homem estragou". Enquanto via o Rio de Janeiro, pensava nos problemas tantos que a atormentavam pelos estragos feitos pelos homens. Se a criação inspira a harmonia, o que significa tanta desavença? Palavras ditas sem cuidado, palavras que perfuram sentimentos e causam feridas. Se os dias se sucedem sem pressa, por que tanta briga com a demora pela cicatrização? O sofrimento tem sua razão de existir, pensava ela. Se há tanta beleza para ser contemplada, por que se perde tanto tempo com visões que desagradam, que desagregam?

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