Um olhar. Apenas um olhar e a quietude. E o coral de vozes não mais a amedrontou.

Era uma menina. Ainda nos tempos da infância. E era tímida. E tinha os medos todos comuns à infância e a todas as idades.

Os pais moravam longe um do outro. Optaram por tentar outras escolhas. Filha única a menina. Era a mãe quem a preparava para ir à escola. O pai a visitava quando podia. Sentia falta do pai a menina, mas ressentia não conseguir dizer o que sentia. Ensaiava pedir alguma atenção. Chegava a pronunciar para si mesma o que haveria de dizer. Não dizia.

A mãe estava sempre em busca de algo que a menina não compreendia. Sobressaltada com a vida. Com as buscas. Com os fracassos.

A menina tinha medo do fracasso. Alguém disse que ela não cantava bem. Brincadeira estúpida, talvez. Mas a incomodou. E como! Quis sair do coral, mas não conseguiu dizer. E por lá ficou. O medo, nesse caso, foi-lhe companheiro.

Era o dia da apresentação. Mulheres e homens estavam no teatro. Entraram as crianças. A menina tinha o coração acelerado. Resolveu cantar baixo para não incomodar. Talvez assim não percebessem os erros da sua voz. Temia esquecer a canção. Temia ter alguma tontura. E o medo roubava dela o prazer de estar ali. Resolveu ficar um pouco escondida. Melhor que não a vissem. Com olhos baixos, teve um súbito de coragem e olhou. Um olhar. Depois de tantos que nada viram. Um olhar e o encontro com os olhos da mãe. Um sorriso. Um alívio. E mais um desejo.

O pai estava entrando. Ela viu ao longe. E não precisou de mais nada. Esqueceu-se de tudo. E cantou. E participou daquela sinfonia. Naquele tempo em que o tempo ainda não dizia quanto é apressado.

A Política, na teoria das Ciências Sociais, é arte e é ciência. É, no dizer de pensadores clássicos, como Aristóteles, a consciência de que somos animais sociais e de que dependemos uns dos outros para o nosso desenvolvimento. É, ainda, a mais alta forma de caridade, em uma interpretação do pensamento de Santo Agostinho. O cuidar coletivo, o deixar de lado interesses individuais em prol do bem comum. A justa medida. O fazer o certo, da maneira certa, no momento certo, com as pessoas certas.

O ser humano, ainda relembrando Aristóteles, deverá ser verdadeiramente bom e irrepreensivelmente tetragonal, que significa 4 X honesto ou 4 X perfeito (ideia de totalidade). Se tiver a excelência moral e a intelectual agirá sempre em prol da felicidade comum o que incorrerá na felicidade individual. Ninguém é feliz fazendo infeliz o outro.

E a educação? Segundo Platão e Aristóteles, é a melhor medida para se aprender a gostar das coisas certas e a desgostar das coisas erradas. Segundo Kant, nós somos o que a educação faz de nós. É a educação que nos possibilita, inclusive, conhecer a felicidade proporcionada pela boa política.

Minha mulher tem câncer. Um câncer que não tem cura. O diagnóstico foi o pior possível. Pouco tempo de vida.

Quando soubemos, olhamo-nos e ficamos algum tempo em silêncio. São quase 40 anos de vida comum. Nos nossos silêncios, filmes nos percorreram. Sei, pelo tempo que estamos juntos, o que ela pensou. Sabe ela o que eu pensei. Os médicos de hoje são pouco econômicos em tergiversações. Vão direto. Não sei decidir se é bom ou ruim.

Depois do silêncio, tentei algum dizer. Lembrei-me de tantos que se curam. A medicina evoluiu, e sei de muitos que enfrentaram cirurgias ou sessões de quimio e de radioterapia. E ficaram curados. E ganharam outro significado no viver. O médico não deu margens às minhas ilusões. Disse logo que não era o caso dela.

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