Helena nasceu um dia antes do aniversário de seu pai.

Bruno, pai de Helena, morreu um dia antes do nascimento da sua filha. Ele queria muito ter vivido um pouco mais. Não dependeu dele. O irmão, com os olhos marejados, apenas disse: "Não é justo!".

A mãe de Helena, Paula, lindamente grávida, acariciava a vida que estava chegando, enquanto chorava a vida que estava partindo.

O sol arrebentava a rotina. Na casa da família, num interior deste país tão grande, os amigos iam chegando. É assim o despedir. Alguns ensaiam algumas tentativas mais ousadas de espantar a dor, brincado de entreter; outros, repetem antigas e respeitosas fórmulas, "Meus sentimentos". Na televisão, passava um jogo de futebol. Um ou outro comentário. Bruno era corinthiano. E agora?

Sentimentos jorravam como cachoeiras naquela casa. Lembranças de outros tempos. O irmão falava da mãe de ambos, que partira prematura; na mesma idade que o irmão agora partia, 27 anos. "Cedo demais". Também foi em um mês de março. O mês das águas que encerram o verão, dizia o poeta, cantava o cantador.

A dor estava ali naqueles olhares distantes, e eles tentando agarrar o que era possível para prosseguirem. Era preciso prosseguir. Helena ainda estava chegando. A semente de Bruno fora plantada. E o milagre do nascimento inauguraria novos tempos. E a alegria da criança haveria de semear outros marços, maios, novembros e assim por diante. Mas por que o câncer foi mais forte que o desejo de ver a filha nascer? Mas por que existe o câncer? Ou a morte? Ou a separação? Por que não sabemos o que há depois? Será que o Bruno está vendo a filha nascer? Será que está sorrindo? Será que conseguirá protegê-la, agora que vive mais perto da Luz? Será que a mãe de Arthur e de Bruno conseguiu fazer o mesmo? Será que a mãe de Bruno foi ao seu encontro para recebê-lo em sua nova condição? Estão juntos? Arthur prossegue. Na arte de e ncontrar o passo certo. Os que amou desde cedo já foram. Mas ainda é cedo para desistir do amor. Entre lágrimas e decisões, as expressões de amanhãs permanecem. Sim, é vida que segue.

Amigos se aquinhoavam buscando explicações. Mistérios não podem ser explicados. Há tentativas, há inspirações, há ditos que consolam, que religam. Mas a dor é a dor, e a sua pujança desafia explicações. A dor daquela família desafiava o sol daquele dia. Em força. Em intensidade. Isso no dia da despedida de Bruno.

Dizem alguns especialistas que o chá de hibisco faz bem, se for consumido de forma moderada. É um termogênico, que melhora a circulação. Ajuda na digestão e impede parte da absorção da gordura pelo organismo. E há tantos outros argumentos que fazem com que algumas pessoas profetizem futuros mais magros.

Márcia e Suzana foram ao shopping. Fazer compras. Suzana é uma amiga e tanto. É presente como se faz necessário ao convívio da amizade. É compreensiva quando a situação assim o exige. E sabe ouvir, o que é fundamental para quem acredita no exercício do amor. Pois bem, Márcia gosta de falar. Fala sem economias sobre os mais variados assuntos. E agora, o assunto predileto é o tal chá de hibisco.

Antes das compras, Márcia cismou que, como vai perder uma quantidade impressionante de quilos, era prudente comprar roupas menores. Suzana argumentou que era melhor esperar o tal emagrecimento. E depois comprariam. Márcia disse que não. Que era impossível não se despedir dos quilos que a incomodavam depois da descoberta do século, o chá de hibisco.

Foram as duas. Antes das lojas, sentaram-se em um café cujo aroma convidava para uma prosa. O atendente veio sorridente tirar o pedido. Suzana pediu um café e uma água com gás. Márcia estranhou, "Só isso?". Suzana relembrou, "Acabamos de almoçar". Márcia olhou para o relógio e não comentou a explicação da amiga. "Quero dois pães de queijo, uma empadinha de palmito que só vocês sabem fazer e um café com adoçante". O moço já se preparava para ir resolver os pedidos, quando Márcia prosseguiu "Humm, me deu vontade de comer um pedaço pequeno de baguete com manteiga". Suzana apenas olhou. O atendente perguntou: "Cancelo, então, os pães de queijo e...". Antes que ele terminasse de perguntar, Márcia soltou: "Não cancele nada! Acrescente! E, por favor, já que estamos aqui, quero aquele brigadeirão, que é a especialidade da casa". Ele anotou e se foi.

Era um sábado à noite. O diretor da peça, Tadeu Aguiar, estava na entrada, recebendo as pessoas. Mulheres e homens vinham chegando de lugares diferentes do Rio de Janeiro para assistir ao musical em homenagem a Bibi Ferreira.

Algumas senhoras comentavam sobre os dias difíceis da cidade. A violência parecia ser o ponto central das conversas. Cenas assustadoras compunham um palco de abandonos e malfeitos. A cidade mais linda do mundo estava prostrada. Seus filhos com medo de sair de casa. Quantas vidas interrompidas prematuramente, quantas lágrimas molhando as famílias enlutadas!

No palco do teatro, a cena era outra. A estrela Amanda Acosta é Bibi Ferreira. Impecável. Com ela, um elenco - que sabe o que faz - traz a história de uma inspiradora. Nascida Abigail, elevou-se a Bibi desde sempre. Filha de Procópio Ferreira, sofreu os preconceitos de uma elite que não compreendia o significado do teatro. Proibida de estudar em uma escola, tornou-se professora dos talentos. Deu vida a personagens, com profissionalismo e paixão. O palco sempre foi seu confidente. Dos amores partidos. Das histórias que gostou de contar. Dos desassossegos tantos que lapidam a alma de um artista. Ela é nossa artista maior. Sua voz fez renascer Piaf, Amália, Sinatra. Sua atuação ensinou que "qualquer desatenção pode ser a gota d'água". Fez mais. Cantou os excluídos em "My Fair Lady", o glamour em "Hello Dolly", a saudade em tangos espanhóis. Apresentou programas de televisão. Entrevistou com conteúdo e elegância. Viveu e vive a vida como um presente de Deus. Os fracassos, exigiu que partissem rapidamente. Nunca teve tempo para lamúrias. Os sucessos, recebeu-os com humildade. Generosa, dirigiu e incentivou tantos outros a prosseguir. A buscar o melhor em cada um deles.

A peça terminou. Que pena. Na plateia, os aplausos eram de gratidão por estarem ali. As senhoras que falavam sobre violência, antes do espetáculo, comentaram sobre a saudade de um outro Rio de Janeiro. Mais romântico, mais vagaroso, mais humano. As expressões franzidas deram espaço a sorrisos. Disse uma à outra: "Nossa, como eu estou leve, como esse musical me fez bem". Eis a resistência!

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