Lygia é escritora. Entendeu, desde cedo, sua vocação. Criou personagens e decidiu seus destinos. Compreendeu o âmago dos que sofrem, dos que riem, dos que dizem, dos que ouvem. Não fez julgamentos. Empacotou dúvidas e enviou aos leitores. "Decidam". Nada de juízos morais, nada de conclusões apressadas, nada de rótulos fáceis. As personagens devem ser desnudadas, aos poucos, no avançar das páginas, no desenrolar das narrativas.

A literatura tem esta beleza: história dos sentimentos. Com as profundezas necessárias. O que é raso não é literatura. É descartável. Lygia preocupa-se com o duradouro. Nos textos e na vida.

Pois bem. Em um desses dias comuns - belos são os dias comuns -, Lygia soltou um comentário em tom elegante: "Falam muito essas pessoas, sabem tudo; já eu, tenho tantas dúvidas". Disse isso e alimentou-se de algumas uvas, sem pressa, saboreando o sabor adocicado. "Hum, que delícia!". Prazeres simples enfeitam os seus dias. Uma echarpe, presente de algum amigo, descansava sobre os seus seios. Lá estava ela, dona de muita sabedoria e ciosa de que as arrogâncias não nos acrescentam nada.

Gosto de ouvir Lygia e suas palavras entremeadas de experiências e bom humor. Não gosto de ouvir pessoas que "sabem tudo". Fico perplexo em ouvir ditos apressados sobre assuntos desconhecidos. Lá vem uma opinião, não uma pergunta. Lá vem um dizer destilando ódio sobre quem pouco se conhece.

Há um antigo ensinamento árabe que nos relembra que há dois ouvidos e apenas uma boca. Há um outro, indiano, que diz: "Quando falares, cuida para que tuas palavras sejam melhores que o silêncio".

Lygia aprecia o silêncio. Os que cultuam a sabedoria apreciam o silêncio. O pensar nasce do silêncio. As palavras nascidas - não do pensamento, mas dos desejos mal administrados - são perigosas. Amizades são desfeitas. Tardes de domingo desperdiçadas. Canso-me dos que pontificam verdades. Sobre qualquer assunto. Basta que narrem algum drama e lá estão eles, os que pouco pensam e muito dizem. Sobre política ou economia, sobre medicina ou filosofia, sobre a vida do outro. Ah, sim, eis o prato predileto no banquete dos supérfluos: a vida dos outros. Não. Nada de celebrar a vitória dos outros, suas conquistas, seus valores, sua contribuição para a melhoria do mundo. Gostam é de fazer torto o que nem sempre torto é.

Lygia prefere falar do ontem e das conquistas dos desbravadores de tantas áreas. Gosta do tema do amor. Do amor que nos expande. Do amor que nos oferece o melhor de nós. Em suas mãos marcadas de lindas histórias, o desenho do tempo gasto com a pena escrevedora. Em sua alma jovem, a esperança de um mundo que ainda nos surpreenda. "Nem tudo está perdido", ensina ela. "Prossigamos, caminhando".

Quando, cansado, recosto minhas decepções em seu colo gentil, ela apenas sorri e me relembra do prazer de viver. Um gole d'água, um café fumegante, um doce qualquer para nos lambuzar de delicias simples e talvez um vinho. Por que não? Para celebrar o que nem sabemos. Sabemos. Os instantes bem acompanhados merecem que brindemos.

Conheço outras Lygias, com outros nomes, com outros ofícios. Conheço gente que, na sensatez dos cotidianos, me ajuda a respirar um ar puro. Mas preciso confessar que também conheço de poluições. De gente que é melhor estar distante. Que acinzenta dias ensolarados. Que nos traz dissabores desnecessários.

Escolher dizer "sim" ou dizer "não" é prova de discernimento, de sabedoria. Espero acertar mais. Olhando para Lygia, para as Lygias que aquecem sem queimar, que cultuam os silêncios sábios e os dizeres edificantes.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia - RJ) | Data: 10/12/2017

Eduardo acabou de completar 7 anos. Com direito a festa, a música, a voluntários vestidos de personagens para entreter e dar alguma alegria ao menino.

Tudo em um hospital. Eduardo tem câncer e luta para reequilibrar o seu organismo e os seus pensamentos. A mãe, sempre presente, exerce a nobilíssima profissão de disfarçar a dor. Sorri o sorriso que encontra em algum esconderijo valente dentro dela e fala sobre o futuro como quem acredita nele. Acompanhados.

Há muitas crianças que conseguem vencer o embate e prosseguir. Eduardo tem um câncer mais agressivo. Não falam muito sobre isso. Não gastam tempo imaginando o tempo que resta. Apenas usufruir o tempo para viver, é isso o que combinaram sem precisar combinar.

Eduardo percebe as pausas da mãe. Por mais que uma cortina de esperança tente desfalcar a verdade, há algo que entra naquele quarto e que os põe a chorar. Algum dito mais carinhoso, algum incômodo na posição devido ao fato de o menino ficar deitado por muito tempo, alguma lembrança do que nunca aconteceu, não tiveram tempo para isso.

Dia desses, Eduardo soltou uma frase ao ser perguntado pela enfermeira se estava doendo, depois de tentativas tantas para encontrar uma veia na tão perfurada pele. Apesar da expressão dizer o contrário, ele foi enfático: "Os valentes suportam a dor". E sorriu o que pôde. E respirou fundo suportando tudo. A mãe também sorriu. E se levantou. E saiu do quarto como quem pede um vento milagroso, um solavanco em um sono, talvez. Poderia ser tudo um sonho, pensa ela com ela mesma. “Poderia acordar e ver o meu filho correndo e brincando e caindo e se lambuzando de alegria. Poderia fazer as contas para as formaturas, as festas, os centímetros de acréscimo a altura de um corpo menino. Poderia ser tudo isso”.

"Sempre há um relógio", foi a frase que Lucas ouviu quando visitara uma tia, que vivia em um asilo.

Lucas andava envolto em pensamentos pouco felizes. Vivia às turras com o tempo. Parece que a beleza ia se despedindo dia a dia. Sempre fora muito vaidoso. Corpo perfeito. Cabelos impecavelmente arranjados. Olhos pidonhos de reciprocidade. Era um sedutor o tal do Lucas. Bastava se interessar e ajustava o olhar e o exibir e o dizer galante na ânsia da conquista. Obtido o sucesso, vinha o cansaço. Era preciso novamente buscar outra presa. E, de sedução em sedução, o jovem ia usando seus dias. E as pessoas pelas quais se interessava.

Amores duradouros não o animavam. Relações sempre efêmeras. Ria quando um amigo dizia que ele era campeão de 100m. Prostrava-se, se necessário fosse, para envolver. Depois abria uma gaveta de dizeres prontos para justificar sua partida. Enganava. Mentia. Dizia "eu te amo" como quem diz "bom dia". Um "bom dia" não causa danos; um "eu te amo" pode ser demolidor. Preocupava-se pouco com o outro e o seus sentimentos. Era sobre ele mesmo o seu repertório escolhido. Mesmo em conversas, preferia fitar-se em algum espelho. Sua imagem o agradava. Ou não. Havia tanta necessidade de conquistar, de seduzir, de se compreender belo que a beleza não parecia suficiente para o seu próprio contentamento.

"Sempre há um relógio", dizia Eunice, a tia.

"Estou ouvindo o barulho", concordava Lucas, olhando em um espelho e reparando no cabelo que já ia se rarefazendo.

"Você gosta de espelho, não é?".

Lucas fingiu não ouvir a frase da tia.

"Eu também gostava".

O silêncio entre eles deu espaço a pensamentos.

"Perdi a única coisa que eu tinha, a juventude".

"Todos perderemos". Concordou Lucas.

"Não. Há outras conquistas. Conquistas que permanecem. Vidas significativas. Ah, não me esforcei para construir nada".

Lucas apenas pensava. Olhava para a tia. E olhava novamente para o espelho. Estava preocupado com os cabelos. E reparava que algumas rugas começavam a se engraçar.

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