A ciranda de uma estrela

Por Gabriel Chalita

A literatura é uma espécie de passaporte mágico. Um bilhete singular que nos permite cruzar as fronteiras do tempo e do espaço, da luz e das trevas, do real e do imaginário, do particular e do universal. Uma vez viajantes, somos conduzidos por enredos, tramas e personagens que comumente nos transportam para dimensões paralelas. Universos capazes de mesclar passado, presente e futuro, terra e céu, tristeza e alegria, grito e silêncio, medo e coragem, desejo e repulsa, configurando uma confluência tão inusitada quanto sedutora. Livros e histórias preservam em seu gene elementos surpreendentes e sensações indescritíveis.

A nós, leitores, cabe embarcar nas aventuras criadas pelos escritores – homens e mulheres que descendem da linhagem onírica do mago Merlin. Bruxos do bem que detêm uma sabedoria especial. Alquimistas especializados em misturas e poções poderosas. Juntos, compartilham entre si o dom da criação: “inaugurando linhagens e fundando reinos”, como já disse a poeta Adélia Prado certa vez… Escritores são como divindades capazes de dar um sentido ainda maior à vida de todos nós, que pertencemos ao rol de personagens da existência real. Esse poder possivelmente determina a essência da escritora paulista Lygia Fagundes Telles, homenageada na Sala São Paulo, neste dia 29 de setembro, para marcar o Lançamento do “I Prêmio de Literatura Lygia Fagundes Telles”. Durante todo o mês, as escolas da rede estadual de ensino organizaram eventos e realizaram estudos relativos à obra da autora. Lygia é misto de mulher e de deusa, que nos arrebata pela palavra e nos domina pelo verbo. Artífice do texto, Lygia nos concede, com suas histórias, os instrumentos necessários para transitar entre a seara do concreto e do abstrato, do possível e do impossível, da sanidade e da loucura, do bem e do mal, do sagrado e do profano – numa dialética de diversidade fascinante. Dialética que nos desperta para a importância dos ensinamentos conquistados por meio da esfera da fantasia. “A criação literária é um mistério”, disse Lygia certa feita. Talvez seja por isso que não saibamos explicar racionalmente como os seus personagens, sejam eles homens ou mulheres, meninos ou meninas, formigas ou anões, podem, a despeito das diferenças que os regem, ser frutos de uma mesma pena e nos mostrar visões e percepções tão distintas dos seres e das coisas. Construtora de emoções, Lygia acredita que o escritor é uma “testemunha do seu tempo” e que o “duro ofício de escrever é uma ponte que se estende tentando alcançar o próximo”. E nós sabemos que fomos, sim, alcançados. Prova disso é que seus textos nos transformam, nos atormentam, nos expõem às dores e às delícias da condição humana. Seus escritos nos fazem mergulhar para dentro de nós mesmos, desvendando novos caminhos e possibilidades para o existir. A literatura de Lygia nos impulsiona para o questionamento e para a reflexão. Todas essas viagens ao centro de nós mesmos – verdadeiras imersões literárias e humanas propiciadas pelos grandes autores – nos concedem um certo grau de divindade também. Assim como eles, parece que dispomos de onisciência e de onipresença. São viagens que nos fazem transcender na medida em que nos permitem o encontro com nossos outros eus… Heterônimos geniais que habitavam em nosso íntimo sem que, no entanto, pudéssemos ter acesso a eles sem o auxílio precioso da literatura. Descobrimos, encantados, que podemos ser heróis e vilões das mais variadas estirpes e nuances… Podemos também voltar à infância e, novamente, ser criança. Podemos, enfim, ser qualquer coisa e experimentar qualquer sentimento que compõe um romance, uma história, um conto. A literatura nos multiplica, nos transforma, nos desperta para outras realidades. A literatura nos faz sonhar, nos redime, nos escandaliza, nos provoca a catarse muitas vezes necessária para que nos reconheçamos em essência. Por isso estamos aqui para fazer reverência à Lygia Fagundes Teles, uma mulher iluminada cuja trajetória poética se confunde com a própria poesia de São Paulo. Poesia de uma cidade contraditória, paradoxal, pulsante… Metrópole que assusta e, ao mesmo tempo, seduz, assim como a obra de Lygia. Vemos essa característica com nitidez em seu belíssimo conto Venha ver o Pôr-do-Sol, quando a escritora revela, por meio da personagem Ricardo, todo o seu fascínio pela multiplicidade das coisas: “(..) a beleza não está nem na luz da manhã nem na sombra da noite, está no crepúsculo, nesse meio-tom, nessa ambigüidade”. É isso. A obra de Lygia é grande de mais para que a classifiquemos apenas como o dia ou como a noite. É preferível visualizá-la como uma linha tênue entre os dois tempos. É a lembrança do sol, mas é também a promessa das estrelas. A obra de Lygia exerce sobre os leitores um encanto vigoroso como aquele vivenciado pelo protagonista do seu conto “A caçada”. Um homem que, após ver uma cena de caça bordada num tapete, vai-se deixando absorver pela representação do desenho, a ponto de se fundir com a imagem e perder sua própria identidade nas tramas simbólicas da figura. O homem não sabe se é a caça ou o caçador mas, mesmo assim, se entrega de forma impulsiva e passional, passando a integrar o desenho. É mais ou menos esse sentimento inexplicável que nos puxa para os textos dessa grande autora. Lygia nos preenche e nos fascina. Lygia habita em nós. Não é à toa que um dos grandes mestres da poesia brasileira, o poeta Carlos Drummond de Andrade, escreveu para ela os seguintes versos: Procuro Lygia em São Paulo, Rua da Consolação? Na fazenda da Palmeira Ou em Campos do Jordão? Procuro Lygia no mapa do mundo aberto em clarão? Em Paris, Tegucigalpa Moscou, Irã, Hindustão? Não procuro Lygia: encontro-a dentro do meu coração. Drummond sintetiza, nesse poema, a força fenomenal de Lygia e o modo como, sem muitas vezes nos dar conta, somos seduzidos por ela, presenteando-a com um lugar de destaque em nossas vidas. Seus amigos mais próximos, poetas sensíveis que puderam desfrutar tanto da beleza de sua obra quanto da beleza de sua vida, não escondem o poder de Lygia e a influência impressionante de sua presença ao longo dos anos. Em meio às Invenções e memórias e às numerosas Histórias de desencontro que marcam nossa jornada neste mundo, Lygia consegue exercer, verdadeiramente, uma eficiente Disciplina do amor, que se estende dos seus amigos próximos aos leitores mais longínquos e desconhecidos. Estamos aqui para provar o nosso amor por essa autora magnífica e para dizer que compreendemos a vontade maior da escritora Hilda Hilst, amiga íntima de Lygia desde a juventude e que, numa entrevista, confessou: “Quero demais morrer segurando a mão de Lygia, porque sei que ela vai entender tudo nessa hora H. Ela vai dizer: ‘Hilda, fique calma e tal que é assim mesmo’.” Sábia Lygia Fagundes Telles… Mulher altruísta que se doa por meio da literatura e que acredita no poder renovador e revelador da palavra. Finalizamos nossa fala lembrando sua maravilhosa resposta quando questionada sobre se a literatura pode melhorar as pessoas: “Pode melhorar, sim. Pode desviar do vício, da loucura. Pode estancar a loucura através do sonho. Eu tenho um impulso que talvez seja um impulso cristão, pelo próximo. (…) E a literatura me proporciona isso. (…) É uma forma de amor. Acho que é isso. No fundo a literatura é uma forma de amor”. Receba, Lygia, o nosso carinho. E o nosso amor.

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