Tocando em frente

Era uma noite como outra qualquer. Nenhuma noite é como outra.

Era um bar em um lobby de hotel.

Era uma cantora que, no repertório, cantava sobre histórias de amor.

Estavam lá Jacob e alguns amigos. Falavam apenas nos intervalos. Quando cantava, a cantadora, ficavam fitos no seu enigmático feito de artista.

Nascida em Buenos Aires, a cantora gosta desses espaços menores. Gosta de cantar sussurrando e de dizer alguns ditos de amor. Jacob é um mestre na arte do amor. Conhece a alma humana e suas dores. Gosta de falar sobre a mente, seus dilemas, suas superações.Gosta também da amizade. Une pessoas e sonhos. Tudo leve como uma canção.

A cantora passa dos tangos espanhóis para as cantigas francesas. E, depois, solta uma brasileira.

Na plateia, um grande cantor, Leo, amigo de Jacob, resolve se levantar e cantar junto. "Ando devagar porque já tive pressa e levo esse sorriso porque já chorei demais". Leo e a cantora e os músicos prosseguem. Juntos.

Jacob observa. A mente humana é capaz de atos perversos, de ódios, de perseguições, de arrogância. Mas é capaz também de romantismos, de encantamentos, de amor. Andar devagar ajuda a compreender a marcha da vida e a contemplar os cenários que sempre nos surpreendem, se temos olhos de ver.

Os garçons conhecem Leo e param para ouvi-lo. "Todo mundo ama um dia, todo mundo chora". Parecem concordar com a cabeça.

Jacob recebe, em seu consultório. Lamúrias de amor e esperança. Quem sente dor quer o presente dos alívios. Quem chora quer voltar a perceber um luar, se possível acompanhado. Quem foi trocado, traído, sonha em prosseguir tocando em frente. "É preciso chuva para florir".

Jacob interrompe um pouco a atenção e comenta sobre a bela metáfora. Dois filhos de Jacob estão com ele. Olham para o sábio pai com orgulho. Ouvem a canção com entrega.

Amanhã será outro dia. Nenhum dia é como o outro.

Amanhã, os que estavam ali se lembrarão de que "cada um de nós compõe a sua história".

Terminam a canção.

Leo atende aos que pedem foto. Sorri, gentilmente. Sabe que a arte não combina com arrogâncias. É simples. Simples como o sábio Jacob. Simples como um caminhar pé ante pé ao destino que se quer chegar.

Dormi iluminado naquela noite. Havia luar.

Por: Gabriel Chalita (fonte:O Dia - RJ) | Data: 03/06/2018

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