Sebastiana é uma mulher de poucas palavras. Aprendeu que só se fala o necessário. Não gosta de opinar sobre a vida das pessoas, acha um desperdício de tempo e de energia. Gosta das suas coisas e dos seus amigos, ou melhor, dos seus amigos e das suas coisas. Não tem muitos amigos porque é da crença de que um amigo merece atenção especial. Se necessário, passa horas ouvindo alguma dor que incomoda um amigo seu. E, depois, diz o que deve ser dito, pensado, refletido.

Sebastiana acordou, tomou o café que ela mesma preparou e buscou na penteadeira a colinha que fez para levar até o colégio em que vota. São muitos cargos, muitos números diferentes, levar anotado facilita a vida, decide ela.

O voto de Sebastiana é dela. A escolha, ela não terceirizou. Ouviu comentários daqui e dali. Ficou surpresa com os xingamentos. Achou desnecessária a quantidade de brigas pessoais ou pelas redes novas que criaram para unir as pessoas.

A praia é sempre um convite para um mergulho nas delicadezas da natureza.O caminhar contemplativo, o molhar os pés, acompanhados de outros pés ou não, o preencher o corpo com o sal que sobe e desce, que vai e vem, o deitar para esquecer ou desejar, o que foi ruim ou o que há ainda de surpreender. É assim o mar, com os mistérios de tantas vidas que se encontram, democraticamente, em suas águas.

Quem são as pessoas que vão e vem e que aproveitam uma pausa para respirar? Deveria ser lindo. Inda mais em um dia de sol. Mas nem sempre é. Pessoas são mais complexas do que as águas salgadas ou do que as areias que se deixam banhar por elas.

Era, então, um dia de sol. E o movimento trazia ondas de pessoas pela rua, pela calçada, pelos quiosques de alimentação. Foi quando vi uma briga. Não dessas assustadoras de arrastões. Não das que envolvem armas de fogo.Eram dois namorados. Penso eu. Jovens, ainda. Ele parecia ter se excedido na bebida, ela parecia disposta a revidar à altura.

E começaram a gritar. Algumas crianças correram assustadas. Faziam tranquilamente seus castelos de areia quando ouviram a deselegância. Um senhor tentava intervir. Ela ameaçava bater nele com uma garrafa vazia de alguma bebida. Ele gritava alto dizendo que sabia que ela o traía. E usando palavras pouco adequadas para quem diz amar.

Era um dia como outro qualquer. E a noite chegou. E, com a noite, a dor lancinante de quem perdeu o seu amor. Celina estava em pedaços. Quem já passou por isso sabe o quanto dói .

Rogério resolveu partir. E partiu partindo os mais lindos sentimentos de Celina. No dia do desfecho, só ele falou. Encheu-a de elogios, culpou-se a si mesmo, contou histórias que mais pareciam preparadas para uma saída delicada. E saiu. Ela ficou ouvindo o que ele disse, mesmo depois de ele não mais estar. E ficou ouvindo o que ele falava antes. As promessas de eternidade. O caminhar junto. A construção de uma história que atravessaria as estações e se manteria firme até o final, até o entardecer do existir dos dois.

Rogério escolheu uma outra mulher. Não foi isso o que ele disse. Foi isso o que ela entendeu.O chegar em casa, depois da tal conversa, foi difícil. As fotos ainda decoravam o ontem. Cheias de risos e de poses. Cheias de encantamento. Anos e anos de histórias. E, em um dia como outro qualquer, tudo se finda.

Celina tomou banho. Chorou o choro doído que desidrata os apaixonados. Enxugou apenas o corpo, a alma permaneceu como quis. Quisera ela ter o poder de esquecer tudo, quisera ela acender a luz e encerrar a noite de uma vez por todas. A noite tem o seu tempo. Envolta em pensamentos, não adormeceu. Uma amiga sugeriu que ela tomasse algum remédio para dormir. Preferiu resistir. Choraria o tempo certo. E depois prosseguiria.

Alguns dias se passaram. Sem conseguir se controlar, enviou algumas mensagens. Ele as respondeu, educadamente. Mas nada de esperanças.

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