Há um tecido de sentimentos reservado para o dia de hoje. Nele, encontram-se frases que lembram fases que marcam vidas. Mãe. Simplesmente assim, mãe.

Há filhos que, no dia de hoje, não podem abraçar a sua mãe. Já se foram. Já voltaram para o jardim sagrado de onde vieram. Deixaram o que tinham de deixar por aqui e partiram. Não há o colo embalante, não há um semblante sequer para aquecer os dias duros. Dureza de vida é essa a de viver sem mãe. Mas é assim que é. Dor e esperança. O amor não termina aqui. Encontros ainda surpreenderão os que, hoje, acham falta. Os que hoje fecham os barulhos e viajam pelo tempo bom.

Há filhos que, hoje, encontrarão suas mães. Alguns presentes serão entregues. Algumas palavras serão ditas. A refeição recheada de afetos.

Há mães que terão lágrimas por companheiras, lembrando dos filhos que partiram antes. Vida difícil. O justo era que estivessem todos juntos. Já não estão.

Era aniversário de Guilherme. Acordou ele antes do horário. Nem sabe a razão. Havia dormido tarde, mas acordou cedo, muito cedo. Resolveu não brigar com a ausência de sono e deu a noite por dormida. E abriu as janelas. E viu a lua. Imensa. Cheia. Repleta de mistérios. Inspiradora. Ficou ali no parapeito, apenas em êxtase. Parecia um presente para o dia do seu aniversário.

Alguns barulhos de dentro da casa desviaram sua atenção. Foi estar com os seus. Recebeu abraços. Mas a janela o chamava de volta. Imaginava ele os que dormiam e desperdiçavam esse espetáculo. Queria dizer ao mundo: "Parem de brigar e vejam a lua!". E, de repente, o sol veio surgindo timidamente. E a lua sem pressa de partir. Juntos ali. Vez em quando, isso acontece. Sem disputas. Cada um compreendendo o seu papel.

Guilherme gosta de rabiscar poemas. Quem gosta de fazê-los precisa gostar de observar. Paisagens e pessoas. Sentimentos.

Pensou ele nos anos que se passaram. Nas histórias tristes que, um dia, ocuparam seu dia. Nos rompantes de raiva que passaram. Nos ditos dos quais se arrependeu. Pensou nas conquistas. Meu Deus, foram tantas! Decidiu que o dia do aniversário não era um dia de pedir. Era um dia de agradecer. E agradeceu. Foi se lembrando dos idos anos de mocidade. E agradeceu. Da família, e agradeceu. Da escolha profissional. Também agradeceu. Lembrou-se de sua mulher amada que morreu antes do dia certo. O certo seria, neste dia, ela estar com ele. Não dependeu dele nem a doença nem a partida. Agradeceu por ter cuidado dela até o fim.

Agradeceu os sofrimentos. Fizeram-no mais consciente de sua fragilidade. Houve tempos em que se achava senhor de tudo. Não. Ninguém é. Ninguém tem todo o poder em suas mãos. Ninguém está imune ao erro, à falta, à injustiça, à dor.

Naquele amanhecer de lua cheia, Guilherme não sentia dor alguma. A idade traz algumas complicações. Mas estava feliz. Decididamente, feliz. Mais um ano chegava e dava a ele a oportunidade de contemplar e de fazer. Lembrou, com algumas lágrimas nos olhos, dos pais que já se foram. Eram bons. Essencialmente bons.

A algazarra da cozinha, com Dona Silvia preparando o bolo, roubou dele um sorriso. "Que cheiro bom, cheiro de aniversário!".

Arrumou-se de felicidade e foi se encontrar com o dia.

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia - RJ) | Data: 06/05/2018

Amanda rompeu sua história de amor. Há nela um emaranhado de arrependimentos e teimosia. Talvez uma medrosa teimosia.

A vizinha de Amanda, Malu, uma mulher alguns anos mais velha, tornou-se sua conselheira. E aí surgiram os problemas. O marido, Felipe, sempre demonstrou ser Amanda a mulher que escolhera para viver as estações da sua vida. Eram felizes nas diferenças. Felipe, um trabalhador contumaz. Amanda, em meio a ditos brincalhões, falava que o bem da vida estava no ócio, no nada fazer, embora trabalhasse também. Felipe sorria das infantilidades da mulher. A paixão minimiza as contrariedades.

Como tinha mais tempo que Felipe, Amanda vivia de conversas com Malu. Malu, abandonada pelo marido, considerava as relações estáveis um engodo. Necessariamente, desconfiava de qualquer história de amor. E foi ela, quem começou a fazer brotar as dúvidas na mente frágil de Amanda.

Por que o marido voltava tarde demais? Por que o marido dava menos presentes do que no passado? Por que o marido insistia em não ter filhos? Por que o marido viajava?

Chegava do trabalho, Amanda, e a voz de Malu acendia nela os piores sentimentos. Chegava o marido e vinham as perguntas, as insinuações, as acusações. No início, pensou o marido que se tratava de uma crise. Deixou de lado. Amava a mulher. Insistiu que trabalhasse mais e que ouvisse menos as vozes maledicentes. Amanda irritou-se. Malu era sua melhor amiga. O marido foi ficando mais ausente. O amor, apenas, não resolve. Relações precisam de admiração, de confiança, de cumplicidade.

Malu começou a semear necessidades para Amanda. Precisava dar passos certos para garantir direitos em uma separação. Felipe confiava plenamente em sua mulher e jamais imaginou viver qualquer situação de desonestidades. Os dias, antes de Malu, eram lindos. As vozes, antes de Malu, eram de bondade.

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