Era um almoço entre amigos.

As conversas visitavam os mais variados temas.

As amizades preenchem de significado as nossas vidas. Alimentamo-nos da saudade e da presença, dos ditos e do silêncio, dos choros e das conquistas.

O amor é sempre um tema reconfortante.

David Neto pôs-se a falar da história dos seus avós, Elisa e David. Ele, 20 anos mais velho do que ela. Conheceram-se como se conheciam naquele tempo. Ele soube que havia uma família com uma moça em idade de casamento em uma cidade do interior. E foi até lá. Falou com o pai e conheceu a moça. Trocaram olhares, algum texto tímido e nada mais.

Naquela época, o pai decidia. Resolveu o pai de Elisa, entretanto, dar a ela o poder de escolha. Um relativo poder de escolha. Ou se casaria com David ou com um outro que chegaria do Líbano em alguns meses. Elisa escolheu David. Preferiu o que já havia visto a alguma surpresa. Casaram-se. Ele, aos 37 anos; ela, aos 17. E viveram a vida de amantes, de amigos, de companheiros, de peregrinos.

O mundo é cheio de subidas e descidas. Percorreram juntos. Contemplaram primaveras e invernos. E, quando menos perceberam, o tempo havia escapado de suas mãos. David morreu aos 82 anos. Elisa tinha 62. As despedidas são sempre incômodas, quando há amor. E amor era a refeição que os alimentava diuturnamente.

A vida prosseguiu e Elisa viveu muito. Despediu-se aos 96 anos. Foi quando David, o neto, engasgou-se com a emoção. "Sabe o que mais me impressionava, quando eu visitava a minha avó?" Perguntou e fez uma pausa. Olhou para o ontem, para os romantismos que surpreendiam. E prosseguiu: "Meu avô foi perdendo o cabelo. E começou a usar um boné. Um boné diferente dos de hoje. De tecido. Eu me lembro desse boné& quot;. Esfregou os olhos. "Minha avó, durante mais de 30 anos, deixava o boné do meu avô dormir ao seu lado na cama em que se amaram tantas vezes".

Era um sábado à noite. O diretor da peça, Tadeu Aguiar, estava na entrada, recebendo as pessoas. Mulheres e homens vinham chegando de lugares diferentes do Rio de Janeiro para assistir ao musical em homenagem a Bibi Ferreira.

Algumas senhoras comentavam sobre os dias difíceis da cidade. A violência parecia ser o ponto central das conversas. Cenas assustadoras compunham um palco de abandonos e malfeitos. A cidade mais linda do mundo estava prostrada. Seus filhos com medo de sair de casa. Quantas vidas interrompidas prematuramente, quantas lágrimas molhando as famílias enlutadas!

No palco do teatro, a cena era outra. A estrela Amanda Acosta é Bibi Ferreira. Impecável. Com ela, um elenco - que sabe o que faz - traz a história de uma inspiradora. Nascida Abigail, elevou-se a Bibi desde sempre. Filha de Procópio Ferreira, sofreu os preconceitos de uma elite que não compreendia o significado do teatro. Proibida de estudar em uma escola, tornou-se professora dos talentos. Deu vida a personagens, com profissionalismo e paixão. O palco sempre foi seu confidente. Dos amores partidos. Das histórias que gostou de contar. Dos desassossegos tantos que lapidam a alma de um artista. Ela é nossa artista maior. Sua voz fez renascer Piaf, Amália, Sinatra. Sua atuação ensinou que "qualquer desatenção pode ser a gota d'água". Fez mais. Cantou os excluídos em "My Fair Lady", o glamour em "Hello Dolly", a saudade em tangos espanhóis. Apresentou programas de televisão. Entrevistou com conteúdo e elegância. Viveu e vive a vida como um presente de Deus. Os fracassos, exigiu que partissem rapidamente. Nunca teve tempo para lamúrias. Os sucessos, recebeu-os com humildade. Generosa, dirigiu e incentivou tantos outros a prosseguir. A buscar o melhor em cada um deles.

A peça terminou. Que pena. Na plateia, os aplausos eram de gratidão por estarem ali. As senhoras que falavam sobre violência, antes do espetáculo, comentaram sobre a saudade de um outro Rio de Janeiro. Mais romântico, mais vagaroso, mais humano. As expressões franzidas deram espaço a sorrisos. Disse uma à outra: "Nossa, como eu estou leve, como esse musical me fez bem". Eis a resistência!

Havia uma penteadeira com algumas gavetas que guardavam algumas fotografias. Havia também alguns livros antigos e algumas agendas de papel. No chão, ao lado da penteadeira, algumas listas de telefone. Ana não sabia por que ainda não havia jogado fora. Eram acúmulos e acúmulos em uma casa pequena. “Pequena era a vida”, pensava ela. Tudo havia passado tão depressa. Olha alguns álbuns e se recorda de algumas datas. O pai era muito religioso. Livros de oração e de novenas também foram se acumulando. Joaquim já morrera há 20 anos. “Nossa!”, assusta-se ela. Ah, o tempo!

Vê livros antigos de antigas campanhas da fraternidade. Olha para o relógio e decide que vai à missa. O pai gostava de explicar o sentido da quarta-feira de cinzas. Iam todos. O pai, a mãe, os 2 irmãos e Ana. E voltavam com o sinal na testa.

Era ainda pequena quando o pai dizia que as cinzas significam a nossa fragilidade. "Um tombo, apenas, e nossa vida, aqui na terra, termina", era o exemplo que dava o pai. "Somos frágeis", insistia ele.

Recorda-se Ana de que a expressão que se usa nesses dias é algo como isso: "Lembra que és pó e ao pó retornarás". Ela não entendia direito a relação do pó com a fragilidade humana. Nem com a história do tombo. Quando criança, achava lindo tudo o que o pai dizia e sorria para ele. Na Quaresma, tempo que se inicia na quarta-feira de cinzas e que prepara a Páscoa, acostumavam-se a fazer algum tipo de sacrifício. Não comiam carne, não bebiam. E cada um escolhia algo de que gostava muito para deixar de comer por 40 dias. Ana escolhia o chocolate, depois se arrependia, mas seguia fazendo o tal do sacrifício. O pai explicava que era para sentir a falta que sentiam aqueles que não tinham alimentos. É disso que ela se lembra. Além de outros ensinamentos bonitos do pai.

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