O encontro se deu entre o espermatozoide e o óvulo. E a vida foi encontrando sua forma. Pedaço por pedaço. Detalhe por detalhe.

Coração transmutou-se em corações. Os dois ritmando a vida. Uma chegando, e a outra autorizando. E o cordão, enfim, cortou-se. Apenas o cordão. O resto permaneceu.

Os corações jamais se distanciaram. E, nas pequenas quedas, no engatinhar, no caminhar, no chorar, o encontro aliviante. Nos cortes que doem, o poder cicatrizante dela. Da mãe. No seu colo, o recobrar de forças. Crianças ou adultos descansam ali. Choram ali. Realimentam ali os seus sonhos. Enquanto dormem o sonho bom, encontram o aconchego. E se valem do direito de estar ali. Tendo errado ou não. O amor de mãe suplanta erros e acertos. Não que não devam elas consertar o que se quebrou. Mas com jeito. Almas alquebradas precisam de algum cuidado. Elas têm.

Nos inícios, os choros são mais previsíveis. Depois, há razões para o debulhar que, talvez, elas desconheçam. A vida é cheia de paisagens. E de becos. E de lamas. E de água para a limpeza. Os sofrimentos virão sempre. Quem os teme desperdiça um sagrado aprendizado. Os erros também são companheiros desde sempre. Tolos os que apontam os erros dos outros. Como se fossem imunes. As mães sabem como soprar alívios. Primeiro, o abraço; depois, o dizer que educa. E as exigências de que melhoremos. Inverter a ordem nos enfraquece. Se o filho sobe na mesa e cai e se corta, primeiro elas cuidam do curativo, depois repreendem pelo abuso.

As mães, um dia, partem. E o milagre do encontro? Prossegue. Partem na sua forma física. Levam pedaços de nossa história. Deixam tristeza. Mas o encontro que se deu, desde os inícios, permanece. No que somos, elas estão. Onde estamos, elas são. Dos traços físicos aos recônditos da memória. Da criação à personalidade que fomos moldando. Elas sempre estão. São.

Já vi filho lamentar pelo amor economizado antes da partida da mãe. Já vi filho arrependido do dito e do não-dito. Das brigas que trouxeram dor. Das ausências que roubaram momentos preciosos. O que passou, passou. Talvez sirva de aprendizado aos que podem ter sua mãe por perto. Os que podem dizer. Os que podem ouvir.

Solange soube, desde cedo, que o mês de maio é o mês das noivas. Na cidade onde mora, nas vozes que escuta sobre o assunto, nas mulheres mais velhas que se acotovelam na pressa de não desperdiçar o mês. Para iniciar um namoro. Para prosseguir até o ano seguinte. Tempo suficiente para conhecer e decidir. E casar.

Uma tia experiente de Solange, que se casou mais de uma vez, não sem antes ter chorado o luto de mais de uma viuvez, sempre iniciou os namoros no mês de maio. E, um ano depois, exatamente no mês de maio, fazia no altar as novas juras de amor eterno. Solange chegou a inquirir a tia se não era pouco tempo um namoro de apenas um ano. A tia, sabida, explicou que, se para o nascimento era preciso apenas 9 meses,... E silenciou. Solange tentou fazer a ligação de uma coisa com outra. Era mais difícil uma criança inteira ganhar forma do que um amor mostrar que já se formou. Que já estava pronto. Seria isso? Ela não sabia. Sabia que era mais um mês de maio. Nos meses que antecederam, ela fez um sério regime. Deixou para os derradeiros dias de abril a mudança de penteado. Soube, de uma e de outra, as promessas que costumavam não falhar. O santo mais acionado era Santo Antônio. Por sinal, padroeiro da sua cidade.

Solange não buscava um homem perfeito. Longe disso. Queria apenas alguém com quem pudesse dividir os afetos mais sinceros. Alguém que a respeitasse. Alguém que dissesse palavras doces em uma vida de tanto amargor. Se fosse bonito, melhor. Se não fosse, beleza é passageira, dizia ela para si mesma. Queria o permanente. Não era dessas que aceitavam um aqui e outro ali. Queria a paz de ir conhecendo cada detalhe das linhas das mãos do seu amor. Leu no salão de beleza que cada linha tem um significado. Interessou-se pela linha da vida. A que define se viveremos mais ou menos. Será que sua tia reparava nas mãos dos maridos? Bobagem. Não acreditou muito. Mas gostou de saber que as linhas não estão à toa nas mãos. Nada é por acaso. Nada é fruto do acaso. Nem as mãos. Solange queria um amor. Que estivesse distraído em alguma esquina e a visse passar. E a olhasse com algum desejo. E reparasse que ela estava pronta para um início, no início de mais um mês de maio. Não se atiraria rapidamente porque o recato é uma qualidade que lhe parece necessária. Por outro lado, não se faria insincera, dificultando uma prosa que poderia ter continuidade.

Paterson é um motorista de ônibus que vive a rotina de um motorista de ônibus. Sua cidade e sua linha de ônibus têm o mesmo nome que o seu, Paterson. Ele é casado com Laura, uma mulher que passa os dias pintando cortinas e tapetes na companhia de seu cachorro. Sonha ela em ser doceira, ou melhor, fabricadora de cupcakes ou quem sabe uma cantora country.

Paterson tem uma rotina comum. Acorda quase sempre no mesmo horário. Beija sua mulher. Come alguma coisa. E vai trabalhar caminhando. Nos mesmos trajetos, consegue inspiração e tempo para escrever poemas. Escreve-os em um caderno secreto. A mulher gosta quando ele os lê. Ela o admira profundamente. Quer que o mundo conheça os seus escritos. É mais ou menos essa a narrativa de um filme de Jim Jarmusch que está em cartaz nos cinemas. O filme é uma celebração à poética do cotidiano.

Ezequiel é um motorista de um ônibus que vive em uma grande cidade que não leva o seu nome, em um grande país chamado Brasil. Ele é casado com Laura, uma professora apaixonada por crianças e por seu marido. Moram em uma casa simples. Acordam muito cedo. Fazem amor quase que cotidianamente e saem para trabalhar. Ezequiel gosta dos finais dos dias, quando toca violão para Laura. Ela escreve silenciosamente seus poemas de amor em um caderno qualquer.

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