O dia 30 de janeiro é o dia da saudade. Assim decidiram. Só não podem decidir que seja este o único dia em que se possa sentir saudade.

Rubem Alves dizia que "a saudade é nossa alma dizendo para onde ela quer voltar". Voltar ao tempo da inocência? Voltar ao lugar em que imaginávamos que todos fossem bons? Voltar à antiga fotografia, quando estava ela completa, quando ninguém havia partido? Voltar ao olhar que tínhamos, quando pela primeira vez nos apaixonamos? Voltar aos ditos envergonhados quando queríamos saber o que depois de algum tempo virou rotina?

A saudade tem o poder de perfumar a rotina? Um andar de bicicleta acompanhado. Depois de termos aprendido. Um nadar de rio. Um procurar quem surgiu e desapareceu. Um tentar entender o sentimento que nos assalta e que muda nosso estar no mundo.

Saudade da paixão. Da paixão cortante que nos fazia provar que estávamos vivos. Um banho de mar. Saudade da primeira vez que vimos a imensidão do mar. Suas águas caprichosas. O ir e vir. O trazer e o levar. O apagar. O recomeçar. Saudade do sol se espreguiçando e anunciando novidades ou de sua despedida. Sabe ele a hora de partir. E lá vem a noite e seus mistérios. Saudade dos anoiteceres acompanhados. A foto pode estar com alguma ausência, mas a memória a guarda como se guarda uma preciosidade.

Saudade de acreditar em amor. De acreditar em verdade. As mentiras foram chegando, uma a uma, e desmoronando sonhos e nos apresentando pesadelos. Saudade de uma noite de sono bom. Quando a preocupação que tínhamos era um jeito novo de brincar. Apenas isso. Saudade do colo da mãe. Saudade do choro do filho. Saudade das mãos do pai. Saudade do engatinhar. E os aniversários festivos. E os natais alegres. E as comidas feitas com temperos de conversas. Era bom estar na cozinha. Os calores nos aqueciam.

Saudade das músicas de ontem, que nos resgatam tempos, que nos rasgam sentimentos. Até dos choros se pode ter saudade. Bob Marley disse sobre a saudade. que "é um sentimento que, quando não cabe no coração, escorre pelos olhos". Saudade do tempo que veio antes do endurecimento. Chorar era bom quando ainda não tínhamos vergonha de expressar os sentimentos.

"Estou satisfeito, muito obrigado", foi a resposta de Sergio quando insistiram que ele comesse mais um brigadeiro. Fernando, envolto em apetites, brincou, "Eu nunca estou satisfeito, sempre quero mais".

Falavam eles sobre brigadeiros. Falamos nós sobre a vida. O que significa estar satisfeito? O que significa nunca estar satisfeito?

Há pessoas que se alimentam do que é necessário, inclusive para o seu prazer. Há outras que, insatisfeitas, se lambuzam em desejos intermináveis. E se avolumam de descartáveis.Querem tudo em excesso. Os olhos não cessam de buscar o que falta. Sempre falta para quem não gasta algum tempo educando o olhar.

Há pessoas que vivem uma história de amor, mas não valorizam. O olhar quer uma outra história, mais perfeita talvez. Histórias perfeitas são ilusões dos que, como dissemos, não sabem olhar.

Há os que vivem em um lugar e gostariam de viver em outro. Não estão satisfeitos. Falta alguma coisa. No lugar? Ou em algum lugar dentro deles mesmos?

Há os que trabalham e lamentam pelo trabalho que fazem. Gostariam de outra coisa fazer. E, quando conseguem, prosseguem na trajetória da insatisfação.

Há os que escolhem uma viagem. E, no meio da viagem, conversam com alguém que está em outro lugar e que descreve o outro lugar como um paraíso. Insatisfeitos, lamentam a escolha. Poderiam estar onde não estão.

Há os que olham os amigos dos outros e desejam ter amigos assim. Não estão satisfeitos com os amigos que têm. Volta a tal da imperfeição.

Há os que sonham com o pai que não têm ou com um filho que pudesse ser diferente. Com pessoas ou coisas, estão sempre nos queixumes. ​O quarto poderia ser um pouco maior. O carro poderia ter um som mais potente.

Diante do espelho, as insatisfações prosseguem. Dez centímetros a mais de altura seria o ideal. Seria mesmo? Ou continuaria faltando algo? 5 quilos a menos faria toda a diferença. Faria mesmo? Ou a insatisfação continuaria cobrando outras medidas?

Fernando tinha apelido de "querêncio" quando era criança. Queria tudo. E encontrava alguém para dar. Os pais não gostavam de vê-lo insatisfeito. De satisfação em satisfação, Fernando não aprendeu a sorver o bom de ter o que se tem. O bom de celebrar o que se conquistou. O bom de compreender que o outro é o outro, e as coisas do outro dizem respeito ao outro, e as minhas coisas foram conquistas árduas que aumentam o meu valor.

​Sergio gosta da vida que tem. Com os solavancos que leva. Com as ausências, comuns em todas as vidas. Com o que amealhou de amigos e de bens. É assim que ele é. É assim que ele conseguiu lutar para prosseguir sem exigir mais que o necessário.

​Fernando come sem prestar atenção. E rapidamente engole um, dois, três brigadeiros. E continua a conversa, sem nada dizer. Sergio olha para o brigadeiro, alimenta-se com o que vê, e depois, calmamente, delicia-se com o seu sabor. Histórias banais de cotidianos ajudam a pensar em escolhas maiores, em posturas, em valores.

Antes de olhar para o lado e alimentar de desejos a vida que não temos, vale educar o olhar para as memórias e as possibilidades, para aquecer o presente de gratidões de ontem e de esperanças do amanhã. Sem ilusões. Apenas com sonhos. Com bons sonhos de satisfação.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia - RJ) | Data: 28/01/2018

“Que dia é hoje?” - perguntou Eliane para sua nora. “Dia 17”. Eliane deu um sorriso. O sorriso de Eliane sempre foi muito bonito. “Dia 17”, repetiu ela e prosseguiu: “Um dia bom para morrer”.

Eliane lutava contra um câncer há algum tempo. O marido se foi assim. Vencido pela doença. Ela sabia que os dias por aqui estavam terminando. Mas continuou brindando a vida. Pediu ao filho uma viagem de navio. Lá foram eles e a cadeira de rodas, e as dores e o sorriso de Eliane. Pediu para sair do hospital para comprar um presente especial para a única neta. Sabia que não a veria crescer. E comprou uma jóia, um colar com um coração.

Eliane, no hospital, pediu à nora que ligasse para algumas amigas. Com as poucas forças que restavam, agradeceu uma a uma. E se despediu. Esperou os filhos chegarem. E, também, o único irmão. E sorrindo agradeceu. Depois adormeceu.

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