Antes das festas do reveillon, é prudente que se faxine a casa.

Receber as pessoas com a casa suja é sinal de desleixo.

Não importa que a comida e a bebida estejam boas. Nem que os enfeites colocados, ainda no Natal, sejam de bom gosto. A casa precisa estar limpa. Precisam estar limpos, também, os donos da casa. É desagradável chegar à casa de alguém e perceber que estão sujos. Parece que chegamos antes. Que não demos tempo para se limparem, se prepararem.

É prudente que se limpem os sentimentos e que se limpem também as atitudes. Sentir e agir têm uma conexão necessária.

Há muita coisa sendo limpa em nosso país. E é preciso mais.

Limpar a corrupção e limpar a hipocrisia.

Limpar a injustiça e limpar a mentira.

Limpar as arrogâncias, as avarezas e os outros pecados todos.

Pecar é desconsiderar o outro e nós mesmos. É desperdiçar o bem que é abundante e é limpo e optar pelas sujeiras da maldade.

Não caiamos no erro dos maniqueístas, dos que separam, de um lado, os que julgam bons e, do outro lado, os que julgam maus. Aliás, tomemos cuidado com os julgamentos. Os excessos invariavelmente são injustos.

Limpemos os dissabores rotineiros. Um banho de razoabilidade, de tolerância, de compaixão nos fará muito bem.

Aí sim poderemos convidar os outros para a festa de um novo ano, de um novo ciclo, de uma nova possibilidade que se abre.

Limpos. Os enfeites disfarçam por um tempo a sujeira. Depois se nota. Triste mal da dissimulação.

Que bom seria que limpos fôssemos verdadeiros. Que verdadeiros pudéssemos compreender as escolhas dos outros e respeitá-las. Que respeitosos trabalhássemos por um mundo sem tantas sujeiras.

O mundo nasceu limpo. Acreditar nisso ajuda a fazer o que tem que ser feito.

Boas festas.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 30/12/2016

Cantarolava ininterruptamente. Olhava para o seu bichinho, presente de algum outro natal, e cantarolava, Colocava o bichinho de pelúcia em posição de quem adverte que é bom estar atento à canção. E dançava guiado pelo ritmo que emprestava à sua canção. Os outros estavam atarefados. Havia conversa e trabalho na cozinha. Palpites e ação. Mudanças de rumo. Pratos que precisavam estar prontos para que a ceia pudesse agradar. Era mais de uma cozinha. Uma tinha fogão a lenha, e outra, a gás.

Na sala, um presépio. Papel comprado em papelaria. Amassado. Tentando ser uma gruta. As personagens, os animais, cada qual no seu espaço. Deixavam apenas de fora o Menino Jesus. Ele deveria chegar à meia-noite. E a árvore de natal, montada com badulaques de muitos natais. Tudo ia se acumulando. Algumas crianças, as menores, ainda acreditavam em papai noel. Os adultos se dividiam em dizer ou não dizer que quem presenteava eram os pais de verdade.

A verdade é que não paravam. As mulheres ainda tinham horário no salão de beleza. Pés, mãos, cabelo, maquiagem. Os homens cuidavam da bebida. E jogavam prosa, enquanto esperavam. Alguns trabalhavam na véspera. E ficavam afoitos para encerrar logo e estar ali. Em família. E ele era imune a todas essas preocupações. Cuidava apenas de cantarolar. Sons mais altos. Sons mais baixos. Risos entremeando as músicas. Não havia dizeres em suas canções. Desconhecia dizeres o menino cantador. Eram sons apenas. Afinados pelo tempo ou pelo amor de quem os ouvia. Certamente ganharia presente. Mas não havia pedido nada. Não sabia pedir. Apenas olhava. E ria. E cantarolava.

Vez ou outra, algum adulto que recebia um telefonema de cumprimentos de algum parente de alguma outra cidade fazia um barulho sério para que ele diminuísse o som. E ele ria. Não fazia cara de aborrecimentos nem de contrariedade. Não sabia o que era isso. Sabia o que era sorrir. O que era dançar no centro da sala. O que era cantarolar para seu bichinho de pelúcia. O que era abraçar quando quisesse. Ah, abraço ele pedia. Vinha correndo e se jogava. E não era pequeno. Era preciso força para compreender a sinceridade de tanto amor. O riso e o abraço eram fáceis de compreender, mas a dor não. Via-se apenas que a música cessara e que as lágrimas caíam e caíam. Alguma parte estava doendo. Como saber qual? A cabeça? O estômago? As costas? Os dentes? Como saber? O que fazer para curá-lo? O amor conhecia os seus caminhos. E ele, de novo, estava no centro da sala.

Todo natal traz um clima diferente para a cidade. Alguns gostam muito. E ficam felizes com os enfeites, as músicas, a correria para as compras. Outros ficam tristes. Lembram-se de outros natais em que a vida era diferente. A vida é sempre diferente. O que pode significar esse clima diferente?

Nos cartões enviados, sempre há alguma frase de esperança. Algum dizer de felicidade. Algum sonho compartilhado de que os valores mais caros à humanidade merecem ser resgatados. E as ações? São as ações que podem fazer com que o natal não seja triste.

O natal é a festa do nascimento do Menino Jesus. O que se pode dar ao aniversariante? Quando crescido, Ele ensinou que toda a Lei e todos os ensinamentos se resumem a este: “Amar a Deus e amar ao próximo”. Quem é o próximo que poderia ser amado neste natal? Pode ser alguém que viva em um asilo ou que viva em um abrigo ou que esteja em algum hospital. Há muitas ações generosas a serem realizadas sempre, mas, em especial, nesse período. Mas o próximo pode ser também quem é da família e com quem se está brigado. Pode ser um vizinho com quem há anos relações foram cortadas. Pode ser um parente distante que aguarda um telefonema.

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