Vi, um dia desses, um homem com um molho de chaves tentando abrir uma porta. Passaram alguns segundos e ele insistia com a mesma chave. Eu olhava as outras chaves, ali, olhando para ele. Mas ele só via uma chave e só insistia com aquela chave, que, certamente, não era a chave certa para abrir aquela porta.

Lembrei-me de um homem chamado Teodoro,que tinha, também, um molho de chaves e que cuidava de uma Igreja. Cada chave abria uma porta. E ele sabia disso. Quando ele não ia, o molho de chaves ficava com a Sebastiana que também sabia que não adiantava insistir com uma chave que não abria aquela porta. Abria outras, mas não aquela.

Naquela época, também vi gente que, ao tentar com uma chave, desistia quando via que a porta não se abria. E eu ficava me perguntando por que não tentar com as outras chaves se há tantas no molho. Por que desistir na primeira tentativa fracassada? Por que não compreender que formato de fechadura exige uma chave. E que, mesmo que sejam muitas chaves, elas são diferentes e se prestam para abrir diferentes fechaduras. Há outra possibilidade também. Desistir da chave antes de saber se é ou não a chave certa. O que não é bom. Porque a pressa fará com que se tente uma chave após outra, e nenhuma delas abrirá a porta. O problema aí não é a chave, mas o jeito de usá-la. Acontece, muitas vezes, de alguém tentar abrir uma porta com uma chave e não conseguir, julgando ser a chave errada, e outra pessoa, usando a mesma chave, conseguir abrir.

Para se abrir uma porta, é preciso superar a teimosia e a impaciência. O teimoso insiste com a chave errada, e o impaciente não dá o tempo necessário para saber se é a chave certa ou errada.

O fato é que, na vida, haveremos de abrir muitas portas. E, para abri-las, precisaremos de muitas chaves. E de destreza. E de cuidado. Desistir no primeiro obstáculo demonstra pouco conhecimento da importância de abrir a porta. Insistir em demasia com a chave errada pode até prejudicar para sempre a fechadura. E a porta precisará ser arrombada, e arrombamentos podem machucar. E machucados nem sempre são fáceis de serem cicatrizados.

Teodoro e Sebastiana eram pessoas que viveram muito e que foram aprendendo, com o tempo, a colocar a chave certa, do jeito certo, e ver a porta se abrindo. Devem, naturalmente, ter errado muitas vezes. Os erros foram importantes para que percebessem a forma e o jeito certo de abrir a porta. O tempo deu a eles a sabedoria. O cuidado. A necessidade de se sentirem úteis abrindo portas. Quem sabe abrir também sabe fechar. Portas precisam ser fechadas. Ciclos vão se encerrando. A maturidade exige de nós outros posicionamentos. Quando escolhemos passar por uma porta, entramos em um novo cômodo e deixamos outro. Escolhas não são fáceis. Mas vivemos delas. Do que comemos à profissão que abraçamos. Do "sim" ou do "não" a um filho ao "sim" ou ao "não" aos nossos desejos. Teimosias atrapalham as nossas escolhas. Insistimos no erro da chave que não abre e desperdiçamos tempos preciosos. Passamos rapidamente de uma chave à outra sem saber, com certeza, se a que abandonamos não era a certa. E também desperdiçamos, porque o erro não estava na chave e, talvez ,demoremos para descobrir que o erro estava no nosso jeito.

Há muitos açodamentos. E a vida exige perícia, cautela, cuidado. Principalmente, quando lidamos com pessoas. Há muitos que dependem de nós e que esperam que estejamos com a chave certa e que a usemos do jeito certo para que uma nova porta se abra. E, com ela, um outro lugar. Um lugar desejado.

Um dia desses, um jovem, ao final de uma palestra, me disse que não suportava mais o seu trabalho. Mas que isso já havia se passado nos outros dois que ele havia abandonado. Fiquei apenas olhando. E ele prosseguiu tentando encontrar uma resposta se o erro estava no trabalho ou nele mesmo. Quando se tem dúvida já é uma possibilidade de acerto. Quem percebe a chave não abrindo e tem dúvida não abandona na primeira vez. Nem insisti em demasia com a mesma. O erro é da chave ou do meu jeito de abrir? O erro é do lugar em que estou ou é meu, de estar insatisfeito em qualquer espaço. Sabedoria não é privilégio apenas dos que vivem muito, mas é dom dos que querem abrir portas e encontrar o lugar correto.

Espero que o homem com o molho de chaves tenha a vontade de experimentar uma outra.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia-RJ) | Data: 06/08/2017

Alzira trabalha em uma casa de família. Gosta do que faz. Trabalha na limpeza, na arrumação e, principalmente, na cozinha. Inventa receitas para agradar a família. Sonha, um dia, abrir um restaurante, mesmo que pequeno, para mostrar para mais gente o seu talento. Faz uma moqueca como ninguém. Sabe fazer à baiana e à capixaba. Faz todos os tipos de tortas e bolos. Enfeita até as saladas. O arroz com feijão tem algum segredo que ela não conta.

A patroa de Alzira a trata com muito carinho. Cada vez que há convidados para o almoço ou para o jantar, ela chama Alzira que recebe os aplausos como uma verdadeira chef de cozinha.

Alzira fica vendo, em seu celular, receitas de chefs famosos. Muda uma coisa aqui, outra ali. Concorda com o uso de alguns ingredientes; com outros, acredita que mistura o sabor, por isso muda. Faz do seu jeito e fica orgulhosa de ter a certeza de que sua receita melhora a original. E assim vai se surpreendendo e surpreendendo aos outros.

Alzira tem um filho de 6 anos, Mateus. Todos os dias senta com o menino e estuda junto com ele as lições da escola. Ela não pôde estudar como gostaria. O filho pode. O filho terá os caminhos mais abertos na vida, pensa ela. E, para isso, o estudo será o melhor companheiro. À noite, eles deitam juntos, e Alzira lê histórias para o filho. Ou inventa. Até que ele adormeça. Sonhando com palavras, personagens, vidas.

Em um dia de folga, Alzira estava indo com o filho na casa de uma amiga. Foi quando houve alguma confusão no ônibus em que estavam. E, então, ela viu que levaram o seu celular. O celular que ela mal havia começado a pagar.

Rosa tem pouco mais de 90 anos. Está doente. Há algum tempo, os médicos disseram que pouca coisa havia para se fazer. Deixou o hospital e foi viver os últimos dias em casa. Rosa não tem medo da morte. Gosta das rezas. Gosta de conversar com Deus e imaginar como será encontrar tantas pessoas que já se foram. Seus pais. Seu único filho homem. Seu amor.

Rosa é viúva. Tem algumas filhas e muitos netos. Tem parentes. Tem amigos. Domingo passado, muitos deles estavam em sua casa. Rosa estava bem. Conversava. Reparava nas conversas. Imaginava...

As crianças brincavam com aparelhos tecnológicos. Os homens e as mulheres bebiam e falavam sobre coisas cotidianas. Vez ou outra, um comentário sobre política, sobre algum filme em cartaz, sobre um médico bom que havia prescrito um tal remédio. A conversa ia fluindo.

Começou um jogo de futebol. Ligaram a televisão. Rosa lembrou do quanto seu marido gostava de futebol. Os tempos são outros. Ela sabia os nomes dos jogadores. Não sabe mais.

Aos poucos, eles foram indo embora. E Rosa foi ficando sozinha. Ela não se importa. Gosta de ficar com os seus pensamentos. Não tem medo deles. Lembrou-se de que havia deixado tudo preparado para a sua herança. Não queria saber de brigas. Conhecia várias famílias que entraram em guerra no momento da partilha. O marido havia deixado muita coisa. Boa parte, ela já havia dividido. O restante já estava acertado.

Mas Rosa pensava em uma outra herança. Que mundo ela gostaria de deixar para os seus. Seu marido era um homem rigoroso com a ética. Não tolerava que ninguém negligenciasse as atitudes de honestidade. Presenciou, tantas vezes, o marido preocupado com o outro com quem estava fazendo um negócio. Queria que as duas partes ficassem satisfeitas. Não gostava de ver alguém vendendo alguma propriedade por desespero. Pagava o preço justo. Tratava os seus funcionários com respeito e os valorizava.

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