Amanda rompeu sua história de amor. Há nela um emaranhado de arrependimentos e teimosia. Talvez uma medrosa teimosia.

A vizinha de Amanda, Malu, uma mulher alguns anos mais velha, tornou-se sua conselheira. E aí surgiram os problemas. O marido, Felipe, sempre demonstrou ser Amanda a mulher que escolhera para viver as estações da sua vida. Eram felizes nas diferenças. Felipe, um trabalhador contumaz. Amanda, em meio a ditos brincalhões, falava que o bem da vida estava no ócio, no nada fazer, embora trabalhasse também. Felipe sorria das infantilidades da mulher. A paixão minimiza as contrariedades.

Como tinha mais tempo que Felipe, Amanda vivia de conversas com Malu. Malu, abandonada pelo marido, considerava as relações estáveis um engodo. Necessariamente, desconfiava de qualquer história de amor. E foi ela, quem começou a fazer brotar as dúvidas na mente frágil de Amanda.

Por que o marido voltava tarde demais? Por que o marido dava menos presentes do que no passado? Por que o marido insistia em não ter filhos? Por que o marido viajava?

Chegava do trabalho, Amanda, e a voz de Malu acendia nela os piores sentimentos. Chegava o marido e vinham as perguntas, as insinuações, as acusações. No início, pensou o marido que se tratava de uma crise. Deixou de lado. Amava a mulher. Insistiu que trabalhasse mais e que ouvisse menos as vozes maledicentes. Amanda irritou-se. Malu era sua melhor amiga. O marido foi ficando mais ausente. O amor, apenas, não resolve. Relações precisam de admiração, de confiança, de cumplicidade.

Malu começou a semear necessidades para Amanda. Precisava dar passos certos para garantir direitos em uma separação. Felipe confiava plenamente em sua mulher e jamais imaginou viver qualquer situação de desonestidades. Os dias, antes de Malu, eram lindos. As vozes, antes de Malu, eram de bondade.

É essa uma pergunta famosa na filosofia.

Maquiavel, um dos fundadores da ciência política moderna, queria saber se, para se manter no poder, era melhor ser amado ou temido. O poder, ao qual se refere o filósofo florentino, parece ser o poder do príncipe ou de quem governa. Mas o poder é exercido em todas as relações sociais.

No poder familiar, é melhor aos pais serem amados ou temidos?

No poder que tem um professor, em uma sala de aula, é melhor que seja ele amado ou temido? No poder que um líder exerce sobre os seus liderados? Um diretor de uma empresa, por exemplo, é melhor que seja amado ou temido?

Vamos voltar a Maquiavel e ao seu tempo. Explicava ele que era bom que fosse amado e temido, mas que, se precisasse escolher, era o temor mais fácil de se controlar do que o amor.

Um pai que é temido por seu filho faz com que o seu filho lhe obedeça com mais facilidade. Um professor que impõe medo aos seus alunos consegue exercer o seu poder com mais tranquilidade. Mas o que quer um pai? O que quer um professor? O temor é o objetivo que os impulsiona a agir ou é o amor?

O amor é mais trabalhoso, é mais inconstante, é mais dialogal. O amor exige mais explicações, mais compreensões, mais atitudes. O temor paralisa e pronto. Está resolvido. Não coloco a mão naquela grade porque dá choque. E não há nada que eu possa fazer para sair. O amor faz com que eu não saia, porque escolhi ficar. É aqui, onde estou, o meu lugar.

Dia desses, fui a um café com uma amiga. Sentamos numa mesa e, ao lado, duas senhoras conversavam. Falavam sem a menor preocupação em compartilhar a história com todas as mesas ao redor. Minha amiga olhou-me com estranhamento e, em um tom comedido, disse: "Por que falam tão alto?". E as gargalhadas também eram sem economias. E chamavam o garçom com um grito de "Oi". Alto.

As pessoas das outras mesas paravam de falar e olhavam para tentar compreender. Uma criança berrava reclamando de alguma coisa em uma mesa não tão distante. Os pais, entretidos com seus celulares, pareciam não se incomodar. Eu olhava um pouco indignado. Desperdício. Por que não contavam histórias aqueles pais? Por que não mediam o crescer cotidiano dos filhos? Não. Estavam em outro mundo.

A música não estava tão baixa. E, de repente, uma das senhoras das palavras altas gesticulou além do normal e derrubou a bandeja do garçom que vinha trazendo algumas xícaras de café, pães, sucos e água. O barulho roubou novamente a atenção dos que ali estavam.

Meus pensamentos buscavam por liberdade. Minha amiga, geralmente vagarosa para comer, deu-se rapidamente por satisfeita. Ir embora era um convite que nos parecia irrecusável. Pagamos a conta e saímos.

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