Vivi em uma família por algum tempo. No início, eu era novidade. Era cuidado. Riam as mais diferentes risadas. Comentavam uma ou outra estripulia. E eu gostava. Queria ser sempre o centro. Pulava de um lado e de outro. E dividia, com justiça, o meu amor. Levavam-me para passear.

E foi assim que minha história começou a mudar. Achei que se tratava de mais um passeio. Mas era uma despedida.Os tempos de filhote já haviam se esgotado. Eu cresci. E eles se cansaram de mim. Difícil acreditar nisso. Eu me sentia da família. Mas foi isso que aconteceu. Quando me vi naquele lugar em que se deixam os carros e que depois se buscam, eu ainda fiquei esperando.

Os carros, talvez, tenham mais valor. Ninguém abandona. Já eu. Um cachorro que não era mais novidade, que talvez desse trabalho. Não sei. Sei que nunca deixei de fazer festa quando eles chegavam. Nunca deixei de estar quando me queriam. Deixaram de me querer e fiquei aqui. Sozinho.

Alguns que não conheço me trouxeram água. E passaram a mão na minha cabeça para aliviar as minhas incompreensões. Por que me abandonaram? O que eu fiz contra eles? Outros me deram o que comer. Como não tinha o poder da escolha, resolvi ficar. Não queria incomodar. Decidi que só brincaria com quem quisesse brincar. E que, no restante do tempo, ficaria deitado, quieto, para não desistirem de mim mais uma vez. Não é fácil ser abandonado.

Foi quando alguns deles, ditos seres racionais, aproximaram-se com um sorriso diferente dos sorrisos que sempre gostei de brotar. E um pau de vassoura. Que estranho! Será que vieram fazer uma brincadeira diferente comigo? Mas e esses sorrisos sombrios?

Um me ofereceu o que comer. Comi, sem abanar o rabo. Com alguma preocupação, mas sem o poder de declinar. Comi e comecei a me sentir estranho. E, de repente, fiquei tonto. Não sei se do que comi ou se do bater intermitente da vassoura. Ouvi alguns "Fora daqui", sequer tinha forças para obedecer. Comecei a ver o sangue se despedindo de mim. Comecei a parar de ver. Apenas vultos. Vultos de risos e de frases sem sentido. Que sentido tem tamanha violência?

Antes de partir, começo a sonhar com o dia em que cheguei àquela casa e com os risos bonitos que me acolheram. Escuto o meu choro doído ao perceber o abandono. E sinto algumas alegrias que tive com os carinhos de desconhecidos. E agora, entre uma paulada e outra, despeço-me, sem compreender.Ouvi tantas vezes que os humanos são os mais evoluídos dos animais. Que nós somos os irracionais.

Não há mais tempo para nada. Vêm, agora, recolher o que restou de mim. Vão limpar tudo. Porque outros humanos chegarão e não querem ser importunados.

O meu nome?Tenho tantos.

A minha história? Repete-se com mais frequência do que vocês imaginam. Morro sem perder a ternura, morro sabendo que fiz o que pude para fazer mais feliz a vida deles. Morro irracionalmente amando.

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia - RJ) | Data: 09/12/2018

A feira fica bem próxima de onde moro.

Tem gente que não gosta. Falam de barulho na montagem e de alguma sujeira depois que se vão. Falam de movimentos acima do normal. Eu gosto.Gosto de madrugar ouvindo gente trabalhando. O silêncio da noite me basta.

Levanto. Abro a janela. Aqueço-me com a luz ainda preguiçosa e dou o descanso por encerrado. E, depois, o banho cumprimenta meu corpo. E, depois, o café se ajeita em mim. Coisas simples. Leves. E parto para a feira.

Gosto do cheiro das frutas. Ah, como gosto. A laranja tem um perfume de lembranças de antes de viver na cidade grande. O limão, também. Não é sempre que tem fruta do conde. Gosto do nome e do formato. E do cheiro, naturalmente.

As conversas da feira também me agradam. Uma oferta de desconto. Um comentário sobre a chuva da semana que já foi. Um dizer sobre o que já está para sair da estação. As frutas mais caprichosas não nascem sempre. Em parte do ano, descansam. E outras vêm. Cada uma em sua época. Há as que estão sempre vindo. Não sei quem decide. As cores também me agradam. Tantas combinações.

Minha filha nasceu. Rosa é seu nome. Enfeitar a vida é seu destino. Olho para a mulher que amo e agradeço. Está linda entre os lençóis do hospital e um travesseiro pouco confortável. Faz gesto de um incômodo sem reclamar. Apenas me olha. Os nossos olhares dizem tanto!

Ainda está com dor, certamente. Mas o olhar nos conduz a tempos que ainda chegarão. Aos que teimam em dizer que o tempo esvazia o balde do amor, tenho a dizer que buscaram em fonte errada. Continuo e continuarei olhando para a mulher que amo com o desejo de eternidade.

Enquanto beijo a menina, viajo pelo tempo do nosso primeiro encontro. Um dia de sol. Um pedido de informação em uma praia de multidão. Como foi que nos vimos? Não sei. Como foi que nos unimos? Quem sabe? O destino existe?

No dia do nosso casamento, quando os meus joelhos beijaram o chão, eu agradeci. Na saída da Igreja, o luar dispensava outras formas de iluminação. E foi assim que prosseguimos.

Rosa era também o nome da minha sogra. Viveu para ver o nosso casamento e depois partiu. A menina é o despertar de amanhãs que nos invade. Corre pela casa anunciando alegria. Ri de coisas simples e ensina que é nelas que deveríamos morar. Sempre.

Gosta de livros e de balas. A preferida é uma de doce de leite que faz com que ela suspire fundo expressando algum êxtase de prazer. A mãe é comedida. Balas em excesso não fazem bem. Eu sou mais permissivo. Finjo que não vejo e rio. No rio da vida, algumas pequenas distrações não perturbam o curso.

Já havíamos vencido o almoço, quando Rosa, olhando-me com olhos pidonhos, pediu a bala. A mãe meneou a cabeça, mas concordou. "Apenas uma", autorizou.

Saímos nós dois. Rosa e eu. Pequenininha de mãos dadas. Os cabelos bem penteados. Uma pulseirinha cor de rosa, um saltitar de compreensão de uma vida nos seus inícios.

Na comunidade em que, a violência ainda teima em permanecer, os homens ainda engatinham na arte de compreender a beleza da paz. E, mais uma vez, houve um corre-corre. Peguei minha Rosa no colo e a protegi como pude. Os tiros vinham de onde nem se sabia. Abaixei. Escondi. E ouvi um grito de dor. Uma bala perdida atingiu uma criança. A mãe chorava o choro doído da injusta morte. Mais uma. Mais uma criança partindo prematuramente. Mais uma dor mostrando sua face. Meu Deus. Apertei ainda mais forte a que nasceu com o destino de enfeitar a vida e agradeci. Fui com ela abraçar a mãe e o seu luto. Fiz o que pude. Chorei junto.

A mulher que amo veio ao nosso encontro. Preocupada. Chorou tanto. Teve medo de ser sua filha. Teve culpa de pensar assim. Minha filha nos consolava quando, enfim, cumprimentamos o tapete com os nossos corpos. Ficamos assim no chão. Sem chão. Com vontade de mudar dali. Com vontade de mudar ali.

A mãe da menina que morreu também havia ido comprar uma bala para sua filha. Uma bala que apenas adoça e faz rir.

Rosa, sentada no sofá, nos observava. "Calma, papai, calma, mamãe. Eu vou crescer e vou cuidar de todo mundo. E ninguém mais vai fazer maldade".

Uma brisa de ingenuidade e esperança nos trouxe de volta o riso. Convidei-a com braços a deitar conosco. No chão da vida. Abraçamo-nos sem nada dizer. E ali mesmo descansamos da realidade.

Um dia, a vida será bela.

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia - RJ) | Data: 25/11/2018

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