Estava no metrô. O metrô parou. Notícias de alagamento. Pararam as notícias. O metrô prosseguiu. O metrô parou.

Desci do metrô. As ruas viraram rios. Os rios impediam o ir e vir. Havia desconforto por todos os lados. Notícias falavam em deslizamentos e em mortes. Em árvores caídas e em luzes apagadas.

Lembrei que eu reclamei, alguns dias antes, da falta de chuva. Onde moro falta água. Sabe o que é viver sem água? Sabe o que é acordar de madrugada para ligar a bomba e tentar fazer a água da rua subir para a caixa d'água?

Pois é. Há alguns meses eu vivo isso. O banho é sempre muito rápido. Lavar a roupa é um problema. As louças, também. Não tenho dinheiro suficiente para comer na rua. Chego tarde do trabalho e preciso lavar coisas, entende?

Resolvi enfrentar a água e ir caminhando. Os medos vieram comigo. Um fio desencapado. Uma doença. Um troço qualquer caído. Mas precisava ir. O cansaço me avisava que eu precisava de um canto para o descanso. E fui. Outras pessoas foram também.

Fui pelas ruas lamacentas. Fui por necessidade.

Quando fui chegando perto de casa, a água foi se despedindo. Minha rua é um pouco mais alta. Quando entrei em casa, uma alegria veio me dizer que eu era um felizardo. Nada de alagamentos. Só as roupas no varal que precisariam de outro banho. Os galões que coletam água da chuva estavam repletos. Até a caixa d'água resolveu me surpreender.

Tomei o banho que quis. Quente. Sentei no sofá e, como costumo fazer, agradeci. Liguei o rádio baixinho, antes de dormir, e suspirei de tristezas ao ouvir as notícias.

Quantos também vencidos pelo cansaço resolveram voltar para casa e, quando em casa chegaram, casa não tinham mais. E ainda há os que perderam os seus para a enxurrada.

Não sei de quem é a culpa. Não sou estudado nessas coisas. Sei que os homens maltratam muito a natureza. Fazem o que não devem. E, um dia, ela reclama.

Amigos meus dizem que eu reclamo muito. Talvez eu precise melhorar. Todo mundo precisa melhorar. Hoje, não vou reclamar. Moro em um canto simples, mas aconchegante. Tenho onde dormir. Quase sempre tenho água. E nunca perco a esperança.

O que eu peço para as chuvas? Que venham mais equilibradas. Já há gente desequilibrada demais por aí.

Amanhã, preciso acordar cedo. Desligo o rádio e rezo pelos irmãos meus que não têm onde dormir.

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia - RJ) | Data: 10/02/2018

Foi a pergunta que me fiz em meio a um turbilhão que se avolumou sobre tudo que eu podia avistar. Alguns voaram depois do aviso das vozes. Há sons na natureza que poucos conseguem compreender. Até porque não prestam atenção.

Outros, acostumados à liberdade, atingiram velocidades que superaram a lama. Quando cheguei, deram-me um nome. Deram-me um local seguro, um canil ao lado de onde entravam e saíam. Deram-me comida, água. Algum ensaio de carinho. Deram-me a possibilidade de conhecer algumas ruelas que ficavam próximas. Levavam-me, entretanto, amarrado. Tudo para minha segurança. Era assim que diziam. Para que eu não me perdesse.

Onde foi que se perderam?

Os desesperos diante da lama demonstram que se perderam. Que os humanos se perderam. E nós, com eles.

Os meus irmãos criados livres, livremente se foram. Já nós, que servimos para servir, ficamos juntos com a lama. Estão sacrificando as vacas, as mesmas que foram servas, para que não sofram. É isso o que dizem. Devem estar muito preocupados com o sofrimento das vacas e dos bois e dos frangos e de nós, cachorros.

Quem criou a lama?

A paisagem era bonita. Nos vários tons do dia. As montanhas altaneiras não se alteram, descansam soberanas emprestando seu verde. A água nasce limpa. Sem as sujeiras que vão nela depositando. Os rios têm o seu curso. Mudaram o curso. Mudaram novamente. Construíram barragens. Nos rios e nas pessoas.

Vejo o sofrimento nascido das perversidades. O mal mora nos humanos e, disfarçadamente, vai enchendo de lama o que pode. Pode muito.

Era uma noite de homenagens. Artistas se entreolhavam, aguardando o início do concorrido prêmio Cesgranrio de teatro.

O Copacabana Palace estava iluminado. Pessoas iluminam pessoas.

E eis que surge ela, Fernanda Montenegro. Os aplausos demonstravam o que já era sabido, é ela uma dama das artes, uma senhora da interpretação, uma condutora da dignidade. A música falava da atriz, o poema falava da história, cada ser humano é recheado de histórias. Os anos vão conferindo acordes à canção da vida.

Os apresentadores começaram a chamar os ganhadores. Cada artista, em sua fala, reverenciava a grande Fernanda Montenegro. Ela ouvia atenta, amiga das emoções, chorava sem disfarces. Os olhos firmes. As mãos dispostas aos aplausos. O sorriso emprestador de esperanças. Eu estava perto. É bom estar perto.

E chegou o momento da grande homenagem da noite. Sobe ela ao palco e recebe a mais alta homenagem de uma Fundação que se esmera em promover a educação e a cultura.

As pessoas silenciam as suas inquietudes para ouvir Fernanda. É a primeira homenagem que ela recebe no ano em que completa 90 anos de vida, 75 anos de carreira. Fala com decisão. A voz sobe até onde deve. O tom é de lembranças e de futuro. Mulheres e homens passaram em sua vida nos palcos, nas telas, nas esquinas. Frequentaram os seus sentimentos, beberam as suas dúvidas, brindaram os seus renascimentos. Cita alguns. Lembra Fernando, seu grande amor. Conta histórias divertidas, responde a perguntas que fazem por aí, e toca no grandioso ofício de representar vidas para vidas elevar. O teatro não vai morrer nunca, decide.

Entre aplausos e atenções, os artistas de todas as idades ficam em sinal de reverência a uma das maiores atrizes do mundo. A brasileira que concorreu ao Oscar pelo "Central do Brasil", que ganhou o Emmy por "Doce Mãe", a dama de Shakespeare ou de Nelson Rodrigues. A que poetizou Adélia e disse Simone de Beauvoir. A que fez rir, a que fez chorar. A que fez e faz pensar.

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