Os comentários na porta do teatro são instigantes:

"Eu brincava na rua ouvindo Nelson Gonçalves, tempo bom".

"É a mais linda voz que o Brasil já teve".

"As músicas que ele cantava eram músicas de verdade, tinham história. Uma letra melhor do que a outra".

Os cabelos brancos vão se misturando aos jovens que esperam a porta se abrir. Já sentados, um vídeo com o jovem Nelson Gonçalves inaugura a noite de emoção. Canta ele "Naquela mesa" e "A Volta do Boêmio". E a orquestra vai se ajeitando, e os dois jovens atores, Guilherme Logullo e Jullie, vão arrumando os seus camarins em cena. E cantam juntos "Quando eu me chamar saudade", no palco central. E revelam o medo de Nelson de ser esquecido.

Há um desfile de canções e de textos para trazer Nelson Gonçalves ao palco. Há um confessionário de dramas humanos, de corações partidos, de medos acumulados que contracenam com um coração que beija o alto, que contempla o luar e que não desiste de amar.

A diretora Tania Nardini preocupou-se com cada quadro. Tudo é pensado para o embate entre o Nelson razão e o Nelson emoção. Há até uma luta de boxe, foi ele um lutador de boxe, em que músicas com intenções diferentes brigam no ringue das decisões. Quem vence? Melhor assistir.

A direção musical de Tony Luchhesi é primorosa. Agrada aos românticos de todas as idades.

Loggulo, um dos mais notáveis artistas do musical brasileiro, mostra uma elegância ímpar no bailar dos diferentes ritmos cantados por Nelson. Do tango à valsa, passando por delicados movimentos de amor.

Jullie está à altura. A voz celestial em um corpo de menina que vive inteira o Nelson dos "nãos". Quantos "nãos" teve Nelson que enfrentar em sua vida de sonhador! Reprovado em concursos de calouros, criticado por Ari Barroso, foi ele persistente o suficiente para encontrar o seu lugar de iluminuras.

Logullo traz o Nelson brigando com um relógio, suplicando ao tempo que passe mais rapidamente. Viveu ele tempos de prisão. As drogas roubaram instantes preciosos de sua vida, e o próprio Nelson, em vida, fez questão de revelar o seu calvário para ajudar os outros a não caírem nas mesmas teias do horror.

O tempo da peça vai passando. A plateia vai passando do riso ao silêncio, do silêncio ao canto, do canto à emoção.

O final é surpreendente. Os aplausos pedem um pouco mais. Uma senhora diz que "Esses moços" lembra o seu marido que já partiu. Uma outra fala de um adeus e da música "Devolvi".Os jovens comentam sobre o amor. Uma menina olha para o seu namorado e revela "que bom que encontrei você".

O amor nos retira da multidão e nos dá o poder da unicidade. Faz toda diferença saber que alguém nos ama. E assim as pessoas vão saindo do teatro. Algumas cantarolando, outras abraçadas, outros brincando de olhar.

Em tempos de pouca atenção ao outro, de fragilidades das relações humanas é bom relembrar os que gastaram a vida alimentando de vida a vida das pessoas.

Viva Nelson Gonçalves, viva o artista brasileiro.

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia - RJ) | Data: 13/01/2019

Remexo em minha bolsa. Não sei por que guardo tanta coisa. Toda vez é isso. Mesmo quando troco de bolsa, é um tal de despejar o que nem sei de uma na outra. E quando saio, e quando preciso de alguma coisa, fico remexendo. Há coisas que nem uso mais. Há, inclusive, bilhetes já sem validade. Há receitas que já foram utilizadas. Maquiagens mais velhas e mais novas. Espelho. Fotografias que vão se acumulando. Cartões que recebo. E paro por aqui. Mas tem mais.

A mulher espera que eu encontre. Sorrio desajeitada. Hei de encontrar. Há outras pessoas esperando. Não sei se dou a vez e se jogo tudo no balcão. E aí encontro. Uma carteira pequena com um cartão de crédito, é só disso que eu preciso. Ela percebe minha agitação e sugere que eu me acalme. E diz, sem acreditar, que com ela acontece a mesma coisa. Quando se tem muito de guardado, tem-se uma certa dificuldade. Excessos trazem peso e nos impedem de encontrar o que precisamos.

Enquanto procuro, remexo em minhas procuras tantas que não deram em nada. As minhas exigências me transformaram em mulher solitária. Tenho temperamento difícil, eu sei, mas os outros são piores. E, além do mais, não são confiáveis. Fui traída por amores e por amigos. E fui acumulando decepções. Os que chegam agora me encontram armada, sem paciência para o improviso. E logo partem. Melhor assim.

No início, quando eu era mais desprevenida, fizeram de mim um alguém sem grandes considerações. Considerei os desprezos e as mentiras e acumulei tudo. E tudo está em mim.

Deixo que quem está atrás passe na minha frente e faça logo o seu pagamento enquanto prossigo na busca. Talvez tenha esquecido em casa. Não. Não é possível. Lembro quando troquei de bolsa.

Troquei de amigos algumas vezes. Conviver não é para amadores. Amei e fui desprezada. Gastei-me em atenção e recebi ausências. Sou daquelas que se põem em prontidão quando o assunto é necessidade. Punha, melhor dizendo. Agora, prefiro a prudência.

Encontrei, enfim, o cartão. Já posso pagar. A mulher me dá um outro sorriso, talvez aliviada. Talvez minha procura a tenha incomodado. Um homem chega em minha direção. "Vera, há quanto tempo". Concentro-me um pouco para acreditar. "Você continua igual, que saudade, como foi difícil te encontrar". Fecho a bolsa, fico alguns instantes sem reação, e solto algum dizer desconectado. "Você mora aqui perto? Posso te acompanhar? Tem tempo para um café?" Frases e mais frases saem de sua ansiedade. Respondo "sim" a todas. Foi ele um amor no passado. Na época, fechei as portas. Gostava de um outro. De um outro que não gostava de mim. E soube apenas do casamento dele. Dos dois, aliás. Será que ele enviuvou?

Enquanto caminhamos, encontro sentimentos que, na época, eu não encontrava. Tenho vontade de dizer que, se ele quiser, eu quero. Fico pensando na chave de casa, jogada na bolsa também. Vai ser difícil encontrar para abrir? Talvez. Agora só sei que gosto do jeito que ele fala e me olha.

Tantos anos depois...

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia - RJ) | Data: 06/01/2019

"Era esse o nome de uma novela antes de vocês nascerem. No tempo em que conheci a avó de vocês. A novela era boa, mas o que importa, agora, é o nome, apenas".

Orlando gostava das rodas de conversas com os seus netos e com os amigos de seus netos. "Prefiro conversar com criança", dizia ele saboreando a própria sabedoria. E as crianças gostavam da conversa.

Falava Orlando de um tempo que há muito havia passado. Explicava como se faziam as ligações telefônicas e a importância que tinha uma telefonista. E as máquinas em que se derretiam os sentimentos nos barulhos do datilografar. E o gerente de banco que era mais humano. E os anoiteceres na calçada com a conversa espantando o calor. "O novo ano está chegando e o que vamos fazer nascer?" .

As crianças se entreolharam esperando quem falaria primeiro ou alguma nova explicação para a pergunta. "Vovô, está falando de bebê?"

"Estou falando do que nasce, e do direito de nascer, estou falando dos sonhos que sonhamos e que não desperdiçamos por aí. Estou falando dos que não aprenderam sequer a beleza do sonho. Quem sonha aqui?"

Rapidamente, as mãos se levantaram. E a conversa seguiu. Faltavam alguns instantes para o novo ano começar. A comida já alimentava os que tinham pressa. Os que bebiam para esquecer já se apresentavam. Mas o bom mesmo eram os ensinamentos do velho Orlando. "Já vivi muitos anos. Quando tinha a idade de vocês, aprendi que, no final de um ano, deveríamos fazer três pedidos. E escrever em um papel qualquer. E guardar em um livro sagrado. E aguardar que os pedidos se realizassem. Cresci um pouco e mudei os pedidos para propósitos. Três coisas que eu deveria fazer no nascituro ano. E assim se passaram muitos anos. E muito fiz, confesso a vocês. E, por fim, decidi escrever os meus sonhos. Quero que vocês façam o mesmo hoje. Esses pedaços de papel que vocês receberam é para isso".

"Vovô, é para escrever três pedidos, três propósitos ou três sonhos?"

"Vovô, qual a diferença?"

"É para mostrar depois?"

"Tem que ser para todo mundo ou só para mim"?

E cada criança ia fazendo a pergunta que quisesse. E Orlando observava com entusiasmo o desejo de aprender que toda criança tem. Quanto desperdício, pensava ele, quando educam erroneamente. Há uma inteligência em cada ser humano que tem o direito de nascer. Estão plenos de uma vida que quer brotar. Cuidar desse broto, é disso que se trata, é por isso que Orlando prefere as crianças.

"Vocês decidem. Mas eu proponho que escrevamos três sonhos para o mundo inteiro".

"Vovô eu gostei da parte do que a gente vai fazer".

"Então escreva, meu neto. O que importa é que as intenções sejam boas. Para o mundo ou para vocês mesmos, que fazem parte do mundo".

Os olhos ávidos daquelas crianças. o papel no colo, o movimentar das canetas, os pensamentos ainda próximos das límpidas nascentes. Era mais um ano que se despedia. Era mais um ano que nascia. Orlando olhava seus rebentos e uma dupla sensação o invadia. O temor pelo amanhã e a certeza de que algo bom vai acontecer. Papéis preenchidos, Orlando sugere que sejam guardados nos bolsos e que, depois, sejam entregues aos livros para que recebam aqueles pedidos ou propósitos ou sonhos. Nos encontros dos escritos, milagres nascem.

Os fogos já avisavam aos céus que um novo ano chegara. Os abraços, alguns sinceros, encontravam aconchego, e as crianças brincavam de felicidade na casa do velho Orlando.

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia - RJ) | Data: 30/12/2018

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