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Era uma noite de homenagens. Artistas se entreolhavam, aguardando o início do concorrido prêmio Cesgranrio de teatro.

O Copacabana Palace estava iluminado. Pessoas iluminam pessoas.

E eis que surge ela, Fernanda Montenegro. Os aplausos demonstravam o que já era sabido, é ela uma dama das artes, uma senhora da interpretação, uma condutora da dignidade. A música falava da atriz, o poema falava da história, cada ser humano é recheado de histórias. Os anos vão conferindo acordes à canção da vida.

Os apresentadores começaram a chamar os ganhadores. Cada artista, em sua fala, reverenciava a grande Fernanda Montenegro. Ela ouvia atenta, amiga das emoções, chorava sem disfarces. Os olhos firmes. As mãos dispostas aos aplausos. O sorriso emprestador de esperanças. Eu estava perto. É bom estar perto.

E chegou o momento da grande homenagem da noite. Sobe ela ao palco e recebe a mais alta homenagem de uma Fundação que se esmera em promover a educação e a cultura.

As pessoas silenciam as suas inquietudes para ouvir Fernanda. É a primeira homenagem que ela recebe no ano em que completa 90 anos de vida, 75 anos de carreira. Fala com decisão. A voz sobe até onde deve. O tom é de lembranças e de futuro. Mulheres e homens passaram em sua vida nos palcos, nas telas, nas esquinas. Frequentaram os seus sentimentos, beberam as suas dúvidas, brindaram os seus renascimentos. Cita alguns. Lembra Fernando, seu grande amor. Conta histórias divertidas, responde a perguntas que fazem por aí, e toca no grandioso ofício de representar vidas para vidas elevar. O teatro não vai morrer nunca, decide.

Entre aplausos e atenções, os artistas de todas as idades ficam em sinal de reverência a uma das maiores atrizes do mundo. A brasileira que concorreu ao Oscar pelo "Central do Brasil", que ganhou o Emmy por "Doce Mãe", a dama de Shakespeare ou de Nelson Rodrigues. A que poetizou Adélia e disse Simone de Beauvoir. A que fez rir, a que fez chorar. A que fez e faz pensar.

Acabei de celebrar os meus 30 anos de padre.

Meu Deus!, o tempo faz o que quer. Vai escapulindo do seu jeito e, quando percebemos, já se foi. Eu era um jovem de 24 anos quando chorei de emoção ao saber que ali entregava a minha vida para celebrar o Amor todos os dias, para acolher os calvários tantos que chegariam até mim, para transformar ódio em bondade. Quantas cerimônias de despedidas presidi, quantos abraços acolhedores em vidas despedaçadas pelas partidas. Poderia desfilar histórias de mães que enterraram filhos, de mulheres que disseram "adeus" aos maridos, de inconsoladas separações. Estava eu ali, presente. O consolo vem da oração e do afeto. Há momentos em que o melhor é apenas estar. Palavras ditas apressadas não encontram o berço preparado para o nascedouro. A morte e a vida são as matérias-primas de um padre. A fé nos alimenta, e as obras do viver nos garantem autenticidade.

Desde que me lembro de algo desejar, lembro-me do desejo de ser padre. Era muito menino quando, coroinha, tocava os sinos nas celebrações. Gostava de ajudar nas cerimônias, sofria com as dores dos dias santos que antecediam a Páscoa. Adolescente, levava a comunhão aos doentes, ensinava nas catequeses, compartilhava os textos bíblicos. No seminário, ouvia as canções sagradas, antigas ou novas, que nos levavam a um lugar de elevação. A primeira missa, os primeiros afazeres de um padre. As dúvidas. A certeza.

E foi com esse recordar que acordei no dia dos festejos. Uma linda missa. Amigos de tantas paróquias por onde passei. Bispos, padres, pastores. Sempre dialoguei muito bem com outras religiões.

E no almoço, momento das conversas livres, um sentimento estranho foi tomando conta de mim. Vi amigos padres animados com a possibilidade de andarem armados, ouvi discursos preconceituosos, percebi atitudes pouco bondosas com os que são ou pensam diferentes.

Ao meu lado, um pastor mais velho parecia viver as mesmas preocupações. Ficamos em silêncio, ouvindo os desatinos: "Tem que matar mesmo, esses bandidos não têm conserto". "Essa gente vem à Igreja pedir coisas, acha que é pronto-socorro". E uma das últimas pérolas foi: "Detesto pobre".

Uma tristeza foi me fazendo companhia. O velho pastor pegou na minha mão e disse, sem nada dizer, que era assim mesmo, que a nossa fé estava depositada em Deus e não nos homens, que foi isso que lemos nas Sagradas Escrituras e isso que aprendemos.

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