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Discurso em homenagem a São José de Anchieta

Em seu Poema à Virgem, José de Anchieta debruça-se sobre o dual dos sentimentos e das ações humanas. No rosto de Deus feito homem, a dor, o suor, os sinais do abandono. Em Seu corpo, o sangue e as marcas da perversidade.

Perversos foram aqueles que O tomaram e Dele arrancaram a paz humana. E Jesus sorveu o cálice que Lhe coube como Salvador. Em paz com o Pai, esteve desde todo o sempre. Ciente de sua missão, iluminou-se pelo Espírito Santo de Amor e, por isso, entregou-se sem ao menos virar o rosto.

O flagelo, a indecente coroa, as bofetadas revelam o pior dos homens: humilhar, ferir, agredir, deixar de amar.

E o homem Jesus viu seus amigos amedrontados O abandonarem. Viu a dor Lhe fazer companhia. Mas ela, a Mãe amorosa, estava ali.

 

 

Reza Anchieta,

"Se o não sabes, a Mãe dolorosa reclama 

Para si, as chagas que vê suportar o FILHO que ama. 

Pois quanto sofreu aquele corpo inocente em reparação, 

Tanto suporta o Coração compassivo da Mãe, em expiação".

O poeta Anchieta é profundo e simples, é erudito e popular. Sua vasta cultura não o distancia de seus irmãos. Missionário dos calvários cotidianos, aprende a língua dos índios, defende-os, encanta-os, surpreende-os. Em cada um, vê a face sofrida do Filho de Deus. Em suas peças de teatro, em seus sermões, em sua prosa cotidiana, a consequência do seu "sim". Consagrou-se a essa vida. O "Apóstolo do Brasil" era consciente de que, nesta terra abençoada, era preciso agir.

É preciso agir.

José de Anchieta é santo da Igreja, canonizado por Sua Santidade, o Papa Francisco. Nome inspirado em um outro gigante das ações de amor. Francisco de Assis é um referencial para a humanidade. O noivo da dona pobreza, o irmão dos animais, o animador dos que - embora cientes da dualidade humana, bondade/perversidade - prosseguem sem desistir. O Santo inspira o papa. Francisco conquistou o Brasil, atraiu jovens de todas as idades que, no Rio de Janeiro, ávidos por um mundo melhor, celebraram a sua jornada.

São José de Anchieta é nosso intercessor. Sabe ele do quanto precisamos fazer para que este país, também dual, encontre o seu rumo.

Há dois Brasis. O dos que têm acesso ao conhecimento e o dos que aguardam, nas periferias do abandono, alguma oportunidade. 

Há dois Brasis. Um perverso, mesquinho, embrutecido pelo ódio e pelas segregações tantas que fazem imaginar que aqueles que não têm, não têm porque não se esforçam. 

E há um outro que acolhe o fraco, o doente, o pobre, o que caiu, o que errou, o que se perdeu. 

Há dois Brasis. Um que destrói e outro que trabalha. Com ética. Com decência.

É preciso agir.

O educador Anchieta agiu. Uniu-se aos indígenas. Fez-se um deles, aplicando os ensinamentos de São Paulo. E não teve economias em amá-los. Valorizou sua cultura. Bradou contra os usurpadores de vidas, que os apequenavam. Ninguém tem esse direito. Somos todos filhos de Deus. Somos todos vocacionados para a felicidade.

Os que pisam, os que pesam ao destruírem a felicidade alheia destroem-se a si mesmos. Porque ninguém consegue ser feliz fazendo infeliz o outro.

Um santo é um intercessor e um inspirador. Que São José de Anchieta interceda por nós. Vivemos na terra que ele tanto amou. Somos peregrinos de um mundo em construção. Frequentamos calvários. Sofremos injustiças. Apanhamos. E, por vezes constrangidos, choramos a solidão.

Que São José de Anchieta nos inspire a agir. A não cansarmos de fazer o bem. A não desistirmos do ser humano. Mesmo quando seres humanos desistem de nós. É assim que é. Dual. Estamos numa casa de leis.

Por esses cantos, mulheres e homens cantaram canções afinadas em defesa da dignidade da pessoa humana, em marcha rumo à ação correta pelo país correto que precisamos construir. Mas, nesses cantos, mulheres e homens também desafinaram e negligenciaram valores imprescindíveis ao nascedouro do amor.

As leis, propunha Aristóteles, existem para desenvolver em nós o hábito de fazer o correto. A justiça é "a excelência moral perfeita", porque pacifica, porque harmoniza, sereniza as relações humanas.

É nosso mister anunciar a esperança. Afinal, como queria Agostinho de Hipona, "A esperança tem duas filhas lindas, a indignação e a coragem; a indignação nos ensina a não aceitar as coisas como estão; a coragem, a mudá-las".

Indignou-se Anchieta com o desprezo dos soberbos, com a maldade dos poderosos, com a ausência de compaixão dos filhos de Deus. Com sua coragem, deixou um nome na história. Educador das gentes, fez nascer cidades e conceitos. E a melhor homenagem que podemos fazer a ele é agir. Cada um em sua caravela. Sem medo das tempestades. Navegando rumo à nova terra, aquela em que brota dignidade, respeito, amor.

São José de Anchieta, rogai por nós.

Por: Gabriel Chalita (discurso em sessão solene do Congresso Nacional | Data: 21/5/2014 | Foto: Geraldo Magela/ Agência Senado) 

 

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